domingo, 11 de outubro de 2009

O POEMA DE LEILA DINIZ


A atriz Leila Diniz (1945-1972), natural de Niterói, era uma figura peculiar. Unia o temperamento enérgico de Áries com uma graciosidade e um senso feminino inigualáveis. Falava palavrão e foi visada por isso, mas não era o esporte dela ser "desbocada". Ela falava palavrão sem compromisso, era sensual sem pretensões, era feminista não por militância política - atividade que não entusiasmava muito a atriz - , mas porque seu senso de liberdade a fazia buscar espaços próprios, apenas porque queria, por gosto. Por isso é que, em vida, Leila Diniz foi vista como alienada e grosseira, mas, depois do seu falecimento, num desastre aéreo, foi exageradamente vista como "militante feminista" (no sentido político do termo), dando a impressão de que todos os atos que marcaram a trajetória delas foram calculados feito um plano de guerrilha.

Por isso Leila foi mal compreendida na vida e na morte, sem que sua personalidade peculiar fosse apreciada por muitos. Só poucas pessoas com senso crítico e observação aguda é que sabem que Leila foi diferente não pela suposta militância, mas pela sua personalidade original e avançada. No ano de sua morte, minha família se instalou em Niterói, na verdade no bairro de Neves, em São Gonçalo, coladinho com o bairro niteroiense do Barreto.

Uma curiosidade em torno de Leila é que ela chegou a escrever poemas, além do famoso diário (que teve um texto incompleto devido ao desastre aéreo). Um deles, "Brigam Espanha e Holanda", originalmente sem título, é de um lirismo gracioso que soou estranho quando recitado com solenidade enérgica no filme Leila Diniz (1987), de Luiz Carlos Lacerda, à maneira de muitos recitais de poemas de Carlos Drummond, Cecília Meirelles e outros. Isso porque o poema, embora fale da "briga" de Espanha e Holanda pelo mar, é de uma doçura impressionante.

Aqui está o poema da belíssima e saudosa Leila:

Brigam Espanha e Holanda
Pelos direitos do mar
O mar é das gaivotas
Que nele sabem voar
O mar é das gaivotas
E de quem sabe navegar.

Brigam Espanha e Holanda
Pelos direitos do mar
Brigam Espanha e Holanda
Porque não sabem que o mar
É de quem o sabe amar.

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