sábado, 17 de outubro de 2009

O "líder de opinião" e o showrnalismo


Em 2003, o jornalista da Caros Amigos, José Arbex Jr., lançou um livro chamado Showrnalismo: A Notícia como Espetáculo, pela mesma editora da Caros Amigos, Casa Amarela.

Com o termo, Arbex Jr. quis fazer um trocadilho entre jornalismo e show, mostrando que o jornalismo da grande mídia é corrompido pela publicidade e pelo espetáculo, elementos usados pelos seus editores para tornar a notícia mais "digestível" e comercialmente viável.

O "líder de opinião", que é aquele jornalista ou blogueiro ultra-badalado não pelas idéias ou pelo caráter pessoal, mas pela "grife" que representa (ou é um jornalista dissidente da "mídia gorda" que agora critica o veículo em que trabalhava, ou um antigo jornalista militante de esquerda que foi corrompido, ou então é um mero blogueiro que se limita a fazer o "dever de casa" das lições da grande mídia), evidentemente tem uma visão muito restrita e acrítica do que é showrnalismo.

Ele se limita a entender o showrnalismo de duas maneiras:

1. Programas policiais que exageram na exibição da violência e do pitoresco;

2. Mídia de celebridades que exageram na publicação de escândalos e frivolidades.

O "líder de opinião", incapaz de ter um raciocínio original e crítico, já que apenas prefere fazer a média entre a mídia gorda e a grande mídia de esquerda, não consegue enxergar a complexidade do fenômeno do showrnalismo, que atinge mais veículos do que se imagina. O showrnalismo vai muito além do Fantástico da Rede Globo, dos programas do Datena, dos jornais popularescos, da revista Quem Acontece.

O showrnalismo invade até mesmo áreas ligadas em tese ao jornalismo objetivo. A Band News FM investe em showrnalismo cada vez mais a cada dia. Os telejornais, presos a gírias tolas como "balada" e "galera" - é só ver reportagens sobre beleza ou sobre crianças - , ou a adotar movimentos de imagem acelerada (técnica que imita os filmes mudos) em noticiários sérios, também são showrnalismo. O que dizer também de tantos clichês jornalísticos, como o costume pateta de dizer que toda atitude ecológica é "ecologicamente correta", senão que eles também são showrnalismo.

Mas o que pode assustar o "líder de opinião" e deixá-lo revoltado é que o paraíso astral do showrnalismo é o jornalismo esportivo. O "líder de opinião" só admite que apenas o Galvão Bueno faz showrnalismo esportivo. O resto, para ele, ou faz "humorismo saudável", ou faz "jornalismo sério'. Coitado dele. A julgar de jornalistas experientes e críticos como Juremir Machado da Silva e Marcos de Castro, respectivamente em A Miséria do Jornalismo Brasileiro (Vozes, 2000) e A Imprensa e o Caos na Ortografia (Record, 1998), o que eles dizem do jornalismo esportivo fará o "líder de opinião" sofrer um enfarte, porque ele se diverte tanto com a mídia esportiva que mesmo os piores erros ele nem consegue reconhecer.

O showrnalismo é uma arma da grande mídia para transformar a mercadoria informação em algo digestível. É uma forma também de torná-la acrítica, afinal os "grandes jornalistas" não gostam que seu público concorra com eles de igual para igual em termos de opinião. Sobretudo quando é um público de esquerda que contesta jornalistas de direita ou centro-direita. Por isso o showrnalismo está infiltrado até nas sutis entranhas do dito "jornalismo objetivo". É bom a gente tomar cuidado.

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