sexta-feira, 16 de outubro de 2009

A música que os homens sisudos não podem mais curtir


Ainda sobre o comportamento dos cinquentões sisudos, os tempos atuais indicam que eles a cada dia terão que se adaptar, até radicalmente, às mudanças, praticamente abandonando aquilo que eles aprenderam no começo de suas vidas profissionais. Não dá mais, por exemplo, para usar aquele mesmo conjunto de calça, cinto, meias (de nylon) e sapatos (de verniz) pretos em qualquer ocasião, mesmo em almoços como o do Yate Clube ou da sociedade de sua categoria profissional.

Os cinquentões que têm esposas mais jovens sofrem ainda mais as cobranças de mudanças. Eles não vivem mais no tempo do Jacinto de Thormes, quando as trintonas eram consideradas "coroas". A trintona de hoje está mais próxima das "garôtas" do Alceu Penna adaptadas à era da MTV, do que à mulher de trinta do samba de Luiz Antônio e cantado por Miltinho.

No gosto musical, os homens sisudos até tentaram desprezar Elvis Presley e Beatles, em nome de uma maturidade para impressionar seus antigos mestres. Os homens nascidos entre 1950 e 1955 tentaram se comportar como se tivessem nascido nos anos 1940, talvez para impressionar colegas mais velhos ou mestres ainda vivos. Mas a pressão social sobre eles, contemporâneos de gente bem mais jovial, os faz adotarem maneirismos que, embora não causem ruptura brusca com os referenciais sisudos de outrora, os façam menos constrangedores na sociedade.

Dessa forma, eles hoje preferem adotar como referenciais as músicas românticas de jazz - sobretudo Ella Fitzgerald, Nat Cole e Louis Armstrong - , os standards de Hollywood (sobretudo Frank Sinatra e Tony Bennett), cantores romântico-orquestrais em geral (Charles Aznavour, Dionne Warwick), operetas populares da linha Domingo-Carreras-Pavarotti e, quando muito, as baladas gravadas por Beatles e Elvis, tipo "Hey Jude" e "Love me Tender". Mas, estranhamente, na música brasileira eles só falam em Tom Jobim, porque, apegados ainda ao estilo "clássico", temem que seu gosto pela MPB seja confundido com o de muitos jovens. Daí usarem um referencial que, embora atemporal (Tom é apreciável para qualquer jovem, sim), é considerado uma tradição respeitável.

Mas muitos nomes que simbolizavam a "elegância" e o "bom gosto" musical foram abandonados, até porque de uma forma ou de outra eles se tornaram hoje bem cafonas. Curtir Júlio Iglesias, por exemplo, é muita covardia, já que na sua aparição recente no Brasil ele foi cumprimentado pelos cantores bregas Zezé Di Camargo & Luciano, Chitãozinho & Xororó e Alexandre Pires. E Kenny G, de tão meloso, só é visto como "sofisticado" em cidades dominadas pelo coronelismo. Mas outros que não passaram por tal situação também se tornaram arriscados para o repertório apreciativo dos sisudos born in the 50's por outros aspectos. Aqui vai a lista dos principais deles:

MANTOVANI E SIMILARES - Orquestras cuja música era considerada, outrora, como "músicas ligeiras" (nos anos 30 e 40, por serem peças semi-eruditas de curta duração) e, depois, como musak, eram a trilha-sonora ideal para as festas granfinas dos anos 60 e 70. Mas tornaram-se antiquadas depois que o "Som da Filadélfia", movimento de soul music orquestrada, sobretudo por músicos como Barry White, anteviram a agitação da disco music e transformaram a antiga música orquestral em algo deprimente e sem graça. Maestros como Mantovani, Paul Mauriat, Billy Vaughn e Frank Pourcel caíram no esquecimento.

RAY CONNIFF - Ele também foi um maestro de musak, mas buscou um apelo pop que era considerado moderno na década de 60, mas hoje ele também é considerado piegas, cafona, ultrapassado.

JOHNNY MATHIS - Ele se lançou como um cantor de standards, algo como um Frank Sinatra mais mulato. Seu talento é inegável como cantor romântico dos EUA, e ele tem até hoje uma legião de fãs fiéis. Mas ao declarar sua opção sexual, a mesma do Elton John, ele se tornou muito arriscado para ser um símbolo de música granfina para os homens sisudos.

BARRY MANILOW - Nos anos 70, ele era a esperança dos homens sisudos. Era também a dos granfinos mais velhos que, comemorando por revanchismo o declínio da Contracultura, viram nascer um então ídolo jovem com jeitão de granfino. Este foi Barry Manilow no início de carreira, apto a gravar até disco music ("Copacabana"), se for preciso. Mas até ele caducou e, o que é pior, o mulambento Alice Cooper gravou duas músicas (entre elas "I Never Cry") com o nível de pieguice não muito distante do engravatado crooner. E desde que o Brasil lançou seu equivalente de Barry Manilow, Fábio Jr., e este se tornou o ídolo das empregadas domésticas, não é boa idéia os sisudos creditarem o cantor norte-americano como símbolo de refinamento e elegância.

MANOLO OTERO - O concorrente mais refinado do chique mas popular Júlio Iglesias, Manolo Otero, lançou-se como o símbolo máximo de toda a assepsia granfina da música romântica, caprichando nos paletós, na pompa orquestral, na super produção e em todo o luxo no espetáculo. Mas Manolo Otero era tão chique, mas tão chique, que se tornou cafona por causa disso. Verdadeiro brega-chique.

2 comentários:

O Kylocyclo disse...

Bruno, eu também reconheço o valor desse tipo de música. O problema não está na importância dela, até porque eu acho que os homens sisudos não curtem essa música pelo verdadeiro valor que ela tem.

Admiro Tony Bennett, Nat King Cole, respeito os três tenores, e por aí vai. O grande problema é que os homens sisudos só apreciam esta música por ela simbolizar valores que esses homens querem se apegar. Não faço julgamento de mérito, mas esses homens querem se passar por "maduros" a todo preço, e o problema não está na maturidade, mas no pretensiosismo dessa maturidade.

Da mesma forma, os posers também se apegam a uma atitude rock que, em si, nada tem de ruim. O que é ruim é a afetação, tanto para um Roberto Justus gostar de jazz quanto para um Axl Rose cantar "roquenroooooooooooooooooollllll!".

No mais, obrigado pela sua colaboração. Abraços.

Bruno Melo disse...

Vndo por esse ponto,concordo.A banda de Axl Poser ´uma das piores coisas que surgiram nos últimos anos.Seus fãs apenas querem dar uma de revoltadinhos.

Conheço também vários empresários que dizem apreciar Jazz para parecerem chiques,mas nem devem conhecer tão a fundo o gênero.