segunda-feira, 5 de outubro de 2009

"Funk" busca título de "patrimônio" por vias políticas


O que poucas pessoas perceberam nessa campanha dos empresários e dirigentes do "funk carioca" é que o processo que as autoridades fazem para transformar o ritmo carioca em "patrimônio cultural" acontece por vias políticas, e não técnicas. Tanto isso é verdade que, a título de eufemismo, os oligarcas do "funk" preferem divulgar que o ritmo é reconhecido como "movimento cultural" e não "patrimônio", classificação esta que eles preferem difundir para a imprensa marrom, que não faz diferença entre coco e cocô.

O verdadeiro título de patrimônio cultural se consegue por vias técnicas, a partir de uma pesquisa aprofundada feita por cientistas sociais sérios, que recolhem dados históricos, manifestações, testemunhos orais de quem viveu essa manifestação, ou então descendentes de quem viveu tal evento. É uma pesquisa séria, criteriosa, crítica, questionativa, documental. Leva muito tempo, por isso os burocratas da política brasileira nem gostam de apelar para esse recurso na hora de recuperar praças e prédios históricos.

Na Praça 15, no Rio de Janeiro, o prefeito Marcelo Alencar não consultou historiadores nem outros cientistas sociais e preferiu reformar a praça num estilo imitação de colonial - que os arquitetos já chamam de pseudo-colonial - , isolando o terminal de ônibus da Av. Alfred Agache sob um túnel escuro chamado "Mergulhão", enquanto a praça propriamente dita é reduzida a uma "paisagem de consumo", ou seja, uma praça feita para turista ver, descaraterizada no sentido verdadeiramente historiográfico.

Mas aí os defensores do "funk" vão dizer que o ritmo "também" é estudado por cientistas sociais, pessoas são entrevistadas, material é colhido, e tem até um antropólogo em cartaz na mídia, que é o Hermano Vianna.

Só que essas atividades todas não integram qualquer plano científico de estudo patrimonial. Em primeiro lugar, são iniciativas isoladas que apenas temperam a retórica de certas tendências intelectuais que fazem apologia ao "funk".

Em segundo lugar, está muito mais claro que o projeto de transformar o "funk" em patrimônio é puramente político, bastando apenas uma votação parlamentar. Tudo isso é deixado evidente através dos fatos. O que prova definitivamente a fragilidade artística do horrendo ritmo carioca, que depende do apoio dos políticos e da grande mídia para se perpetuar.

Nenhuma música autêntica necessita desse lobby para ter credibilidade. A música de verdade fala por si mesma. Já o "funk" precisa "falar" através do poderio da grande mídia.

Nenhum comentário: