quinta-feira, 3 de setembro de 2009

A PEEMEDEBIZAÇÃO DA MPB


Paulo César Araújo defendendo o brega "de raiz". Hermano Vianna defendendo a música brega do futuro. Rádios de brega-popularesco aos montes no país, do Oiapoque ao Chuí. Reacionários defensores de ídolos popularescos, mais preocupados em ofender quem não gosta desses ídolos do que de defender estes próprios.

Desde 2002, eclodiu toda sorte de campanhas para defender todo aquele universo musical brasileiro, de qualidade bastante duvidosa, como se fosse a "cultura popular de verdade". De uma hora para outra, calaram-se as vozes contra (Artur Dapieve, Arnaldo Jabor, Ruy Castro, Mauro Dias), muitas vezes a contragosto e por imposição dos editores da grande imprensa. Por outro lado, vieram várias vozes a favor, usando de todos os pretextos para perpetuar a fauna brega-popularesca nas paradas de sucesso, tentando fixar a todo custo seus ídolos no gosto popular.

Eram ídolos que sempre estavam no establishment da grande mídia. Mesmo que este establishment seja tão somente regional. Mesmo assim, toda uma retórica armada das mais diversas formas, da defesa apaixonada de um ídolo brega ou neo-brega até o ataque mais difamatório contra seus detratores, tenta dar a falsa impressão de que esse universo musical nunca fez algum sucesso na vida e que seus ídolos são "injustiçados" pela mídia e pelo "sistema".

É um discurso falacioso, que recorre sempre aos mesmos apelos: "ruptura do preconceito", "conquista de espaços", "inveja contra tais ídolos", e tudo mais. Várias vozes, várias estratégias, várias alegações. E o que os defensores da música brega-popularesca, de Waldick Soriano a MC Créu, de Odair José à Banda Calypso, de Gretchen a Alexandre Pires, de Nelson Ned a Zezé Di Camargo & Luciano, querem com tudo isso?

Simples. Querem transformar a Música Popular Brasileira numa "casa da Mãe Joana", num universo de vale-tudo, onde até os glúteos das mulheres-frutas podem peidar sossegadamente na cara dos estudiosos da cultura brasileira. Tudo para garantir vantagem para quem realmente interessa: os políticos, empresários e latifundiários que estão por trás desses ídolos e que ninguém pode desmentir, embora se esforcem em omitir.

Pois tudo isso se compara ao que os políticos fizeram com o antigo Movimento Democrático Brasileiro, hoje reduzido a um balaio de gatos chamado PMDB.

O MDB surgiu em 1964, por razões do AI-2, que extinguiu partidos políticos, sindicatos, instituições diversas, dando complemento ao Ato Institucional anterior, que a ditadura lançou para cassar direitos políticos de várias figuras públicas (inclusive o ex-presidente Juscelino Kubitschek, que ingenuamente apoiou o golpe de 1964 achando que iria resolver a instabilidade do oblíquo governo Jango).

Dois partidos surgiram no lugar.

Primeiro foi a ARENA (Aliança Renovadora Nacional), na prática reencarnação da antiga UDN (União Democrática Nacional) que, salvando seus princípios, teve que alterar seu nome ao longo dos anos, tendo sido PDS, PFL e hoje DEM, mas é sempre a velha UDN das "bandas de música" e da "bossa nova" (que lançou José Sarney) e agora temos a "banda emo da UDN" (os EMOCRATAS) de Rodrigo Maia, ACM Neto, Paulo Bornhausen e outros.

Segundo, foi o MDB (Movimento Democrático Brasileiro), partido de oposição moderada que, no grosso, foi composto por remanescentes não-cassados dos quadros menos reacionários do PSD, menos engajados do PTB e menos radicais do PCB.

Muitos que se opunham à ditadura militar não confiavam no MDB. Achavam que era oposição de fachada, e no fundo era, realmente. Sua salada ideológica, incluindo comunistas, trabalhistas e pessedistas flexíveis, fez com que o partido se tornasse esquizofrênico na sua proposta "democrática", e, como único partido formalmente sobrevivente dos tempos da ditadura (ganhou apenas um "P" de "partido") - já que a ARENA, como partido conservador, teve que mudar seu nome para salvar seus princípios - , tornou-se algo sem identidade, sem cara, sem perfil.

O PMDB tornou-se uma massinha de modelar, que ganhava a forma que tivesse, daí ter virado o símbolo do "fisologismo político", que é o processo de adotar medidas anti-éticas e até "vira-casacas" para obter vantagens pessoais.

A SIGLA MPB

Com um passado mais nobre que a sigla política MDB, a sigla MPB também representou uma alternativa de manifestação contra a ditadura. A sigla apareceu, oficialmente pela primeira vez, em 1960, com os Centros Populares de Cultura da UNE. Mas foi adotada em larga escala em 1964, como reação à ditadura. Até um grupo vocal surgiu com a sigla no seu nome: MPB-4.

Embora a ditadura tenha impossibilitado a continuidade do diálogo entre os intelectuais dos CPC's da UNE com as classes populares - processo que no plano cultural era influenciado pelas teses do Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB), liderado por gente como Roland Corbisier e Nelson Werneck Sodré - , o movimento MPB tentou perpetuar as propostas cepecistas e popularizá-las de alguma forma. A música brasileira adotou os festivais da canção como seu reduto e o projeto cepecista já havia se fundido com a sofisticação da Bossa Nova.

Na época a repercussão foi enorme. Uma geração de universitários que, com muita musicalidade e consciência sócio-política, fizeram uma música variada e de alta qualidade, cruzando sofisticação bossa-novista com regionalismo cepecista. Pouco depois, veio o Tropicalismo para criar uma nova visão que, sem renegar a fase anterior da MPB, queria adicionar a ela elementos da música jovem contemporânea e conceitos esquecidos do Modernismo de 1922.

A MPB, dessa forma, conseguiu prolongar o fôlego bossanovista e cepecista até 1977, quando as regras de mercado, adotadas por executivos de gravadoras oriundos de grupos menores da Jovem Guarda, sob o apoio da Rede Globo iniciaram um processo de pasteurização da MPB, o que subordinou a Música Popular Brasileira a fórmulas como músicas românticas, letras piegas, discos superproduzidos e às vezes gravados no exterior e arranjos cheios de sintetizadores ou orquestras numerosas.

Paralelamente a isso estava a música brega que surgiu patrocinada por empresários de redes de lojas (supermercados, eletrodomésticos etc), latifundiários e donos de grandes redes de rádio. Seu sucesso representava um padrão de "cultura popular" que agradava aos detentores do poder durante a ditadura militar, em que pese alguns de seus artistas terem sido censurados (Odair José, Waldick Soriano), mais por alusões a sexo e drogas e por interpretações falsas que levaram a pseudo-alusões contra o regime militar.

A partir dos anos 80, com nomes como Sullivan & Massadas, Chitãozinho& Xororó e Wando, a música brega se fundiria com elementos da "MPB pasteurizada" que produziriam uma geração a se ascender nos anos 90: Só Pra Contrariar e seu cantor Alexandre Pires, Leandro & Leonardo, Zezé Di Camargo & Luciano, Frank Aguiar, Latino, entre outros. Por outro lado, a influência claramente grotesca de Gretchen, Sérgio Mallandro e quejandos produziria todo o "funk carioca" e nomes como É O Tchan, Tiririca, Mamonas Assassinas, Tchakabum e outros. E também veio a axé-music abençoada por Antônio Carlos Magalhães. Esses universos surgidos ou crescidos nos anos 90 são o que se convém chamar de neo-brega.

Apesar de reações eventuais contra a breguice reinante, como em 1990-1993 (Marisa Monte, Adriana Calcanhoto, Lenine, Zélia Duncan e todo o mangue beat), em 1999-2004 (Maria Rita Mariano, Seu Jorge, Cordel do Fogo Encantado, Vanessa da Matta, Roberta Sá), o brega-popularesco, alimentado há décadas por um esquema de marketing e propina chamado "jabaculê", antes limitado às rádios e hoje estendido para espaços culturais e cientistas sociais, ameaça a soberania da Música Popular Brasileira autêntica, com todo um repertório discursivo engenhoso.

Mas, embora muitos usem como o pretexto a idéia, altamente discutível, de que a diversidade cultural brasileira também inclui ídolos bregas e neo-bregas, a intenção mesmo é de transformar a MPB num PMDB cultural: num universo fisiológico, em que basta gravar qualquer porcaria cantada em português para "ser MPB". Pode ser até o Créu. Isso em nada vai enobrecer os ídolos popularescos que, colocados lado a lado aos grandes nomes da MPB, darão uma comparação inevitável, que fará com que breganejos, axezeiros, sambregas, porno-pagodeiros, funqueiros, bregas veteranos etc levem a pior, porque sua música se mostrará muito mais medíocre que a dos músicos e cantores da MPB autêntica.

Além disso, a hegemonia comercial do brega-popularesco se deve muito ao hoje senador do PMDB, José Sarney, que através da distribuição politiqueira de rádios fez crescer várias emissoras de brega-popularesco do país. Os ídolos popularescos nada têm que atacar o senador que tanto fez por eles.

3 comentários:

Marcelo Delfino disse...

Gostaria de anotar aqui um texto que estou publicando hoje na minha resenha da rádio 93 FM, que era uma rádio de MPB que virou rádio evangélica em 1992:

Na época, a cúpula da rádio recebeu críticas por acabar com o importante espaço para a MPB que era a Nacional FM. A esposa de Arolde de Oliveira, sra. Yvelise, respondeu afirmando que música evangélica "também é MPB".

www.radiorj.com.br/fm0933.html

O Kylocyclo disse...

Pois é, Marcelo, nessa peemedebização da MPB eu sempre imaginei Aline Barros e Tati Quebra-Barraco se engalfinhando e uma arrancando os cabelos da outra, tão felizes no balaio de gatos que muitos sonham para a MPB.

Edilson Trekking disse...

Axé, pagode,breganejo , tche-music,forró-brega e outros que põe o povo brasileiro no ridiculo, há muito já foram reprovados pela Escola de Música Villa-Lobos.