quarta-feira, 9 de setembro de 2009

NORMAN MAILER E O OFTALMOLOGISTA "QUADRADO"


Numa entrevista feita ao Jornal do Brasil, há cinco anos, o oftalmologista carioca Almir Ghiaroni afirmou que, entre os autores literários que lia, estava o jornalista Norman Mailer (1923-2007), considerado por muitos um seguidor do new journalism.

No entanto, o que Almir - dado a uma personalidade bastante sisuda, apesar de casado com uma mulher mais jovem e de ser um ano mais novo que o Lulu Santos, uma sisudez que chega ao ponto de aparecer quase sempre com terno preto com gravata ou com smoking em festas de gala - não conhece é que Norman Mailer lançou, por volta de 1959, um livro chamado The White Negro, traduzido aqui como O Negro Branco.

Não tive oportunidade de ler nem sequer adquirir o livro, mas soube dele através de uma longa análise de Luiz Carlos Maciel. Mailer afirmava, no livro, que uma época como vimos na Contracultura (1964-1968) estava por vir. Ele descrevia dois tipos principais de homem que seriam escolhidos na vindoura década de 60: o square, o "quadrado", e o hipster, o "avançado", algo entre o beatnik (cujo maior exemplo é o escritor Jack Kerouac) e o hippie (cujo exemplo mais engajado foi o tresloucado, no bom sentido, Abbie Hoffman).

O "quadrado" seria aquele homem que parecia correr atrás dos EUA dos anos 40, e quando começava a curtir a década de 1940 (comprometida por causa da Segunda Guerra) na década seguinte, a geração rock'n'roll lhe atrapalhou sua festa. Seria aquele homem com mania de ser granfino, 'maduro', influenciado sobretudo pela já superada fase áurea de Hollywood (1937-1958), querendo se vestir, até nos dias de hoje, como se fosse um Cary Grant com trejeitos de Humphrey Bogart. Tem uma obsessão doentia pela elegância e pelo refinamento, que calcula até mesmo a maneira de dar uma risada.

O "avançado" usava o jazz instrumental para reagir ao romantismo dos standards (cruzamento do dixieland com os musicais da Broadway que caraterizou a música cinematográfica de Hollywood, confundida por muitos com o jazz), e adotava valores considerados estranhos ao mundo square: filosofia existencialista, religiões chinesas, longas viagens, sem propósito muito definido, pelos EUA. Era um rebelde mesmo depois dos 30 anos, e achava que todos os valores "superiores" do american way of life estavam caducos.

O hipster tornou-se manifestante de primeira hora da Contracultura, até mesmo antes desta onda de manifestações juvenis. Chamou negros, gays, operários e outros excluídos sociais a se manifestarem. Reprovou o rock dos anos 50, mas deu boas vindas aos roqueiros ingleses e californianos que renovaram o gênero nos anos 60. E manteve uma personalidade jovial mesmo depois da idade madura.

Hoje a sisudez de Almir Ghiaroni não encaixa mais numa revista Caras mais pop, numa coluna de Hildegard Angel mais próxima do mundo fashion da mãe do que do desfile de granfinos que a coluna antes mostrava. Uma de suas aparições mais recentes foi no Programa do Jô, da Rede Globo, quando o oftalmologista, só para lançar um livro seu (o segundo romance), apareceu de terno preto, desses trajes que os industriais mais ortodoxos usam nas cerimônias mais formais. Só que o mesmo programa do Jô Soares também recebe gente como o Marcelo Adnet.

Já dá para perceber o exemplo do square brasileiro, ofuscado por uma modernidade mais colorida de roupas joviais e idéias arejadas.

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