segunda-feira, 7 de setembro de 2009

MAURO FERREIRA EXAGEROU NOS ELOGIOS AO BREGANEJO DANIEL


A única ressalva que posso fazer do Daniel (de quê, afinal?) é que ele se tornou um ator razoável, como se vê na novela Paraíso da Rede Globo. Mas, como cantor, continua um "mala sem alça" irrecuperável. Mas tais qualidades até o Fábio Jr. também tem, um grande ator que, como cantor, é chato de galocha.

Mas o carioca Mauro Ferreira, que, pelo jeito, deve ver a roça brasileira sob os olhos distantes do cidadão-zona-sul, elogiou até demais o breganejo do cantor remanescente da dupla João Paulo & Daniel.

Em primeiro lugar, Daniel se comporta mais como um crooner, na "melhor" (se é que pode-se dizer melhor) das hipóteses, é como se um cantor do programa Ídolos gravasse um repertório de música caipira. Em segundo, porque a produção se empenhou num tratamento luxuoso e pomposo, afinal é a trilha-sonora de uma refilmagem de um antigo filme caipira.

Mas se os críticos elogiam cantores neo-bregas que gravam clássicos da música brasileira, podemos comparar isso a professores paternais e bondosos que dão nota dez para alunos que fazem mero trabalho de cópia. É aquela coisa: indica-se um livro para estudo, digamos, de História do Brasil, e o aluninho vai copiar, literalmente, o texto indicado do livro, sem redigir suas próprias impressões e idéias sobre ele. O aluno se limitou a fazer um trabalho de cópia, de copidescagem, mas a professora, que provavelmente nunca leu o livro (não teve tempo, com marido e filho pra criar), deu nota dez para o trabalho.

É assim que a crítica faz com Daniel, com Leonardo, com Alexandre Pires, com Chitãozinho & Xororó, com Belo, com Exaltasamba, com Zezé Di Camargo & Luciano, toda vez que qualquer um deles grava um clássico da MPB, seja Ataulfo Alves ou Cornélio Pires, seja Djavan ou Milton Nascimento, seja Paulinho da Viola ou Renato Teixeira. A crítica aplaude sem entender realmente o espírito da coisa, sem entender o pedantismo reinante entre esses ícones do brega-popularesco.

Mas Mauro Ferreira faz parte daquela turma de deslumbrados, como também o historiador Ricardo Cravo Alvim faz parte. De formação urbana fechada, não tem a menor idéia do que é realmente a música caipira autêntica. Esforçados à primeira vista, até conhecem a música caipira verdadeira (e já antiga), mas acham que o usurpador e deturpador breganejo iniciado por Chitãozinho & Xororó são continuidade da verdadeira música rural.

Inezita Barroso era urbana, mas passou férias na fazenda de um tio e se aprofundou nas pesquisas sobre música caipira autêntica. Mas esses jornalistas e intelectuais ouvem músicas "corretas" dos ídolos breganejos e pensam que isso é música caipira de verdade. Pouco sabem deles do horroroso repertório autoral desses ídolos.

O que dá a falsa impressão de sofisticação nessa ala pedante do brega-popularesco é que para "artistas" como Daniel, Alexandre Pires e Zezé Di Camargo etc, etc e etc, é que eles, como contratados das grandes gravadoras, contam com equipes técnicas que outrora trabalharam com os medalhões da MPB, que não estão mais no elenco dessas gravadoras. São arranjadores, produtores, artistas gráficos, engenheiros de som, músicos de estúdio, que são obrigados a fazer um aparato luxuoso para fazer os ídolos neo-bregas mais "palatáveis" a públicos mais abastados. Tudo embalado direitinho, num aparato luxuoso que, mesmo cuidadoso, soa muito falso. São interesses meramente comerciais que levam a esses recursos de pompa e tecnologia, nada que a história da MPB faça se lembrar com saudade daqui a 50 anos.

Esse aparato, no entanto, é a manobra certeira da indústria breganeja (como é no sambrega, por exemplo). É um aparato que lembra, por simulacro, os valores "tradicionais" da família brasileira, os clichês do sertanejo estereotipado, do sambista estereotipado. Supostamente, não há a "maldade" que funqueiros e pagodeiros da pesada exibem nas noitadas suburbanas, por isso é que um breganejo "família" e um sambrega "mais amigo" dão a falsa impressão de que "é coisa diferente". Tudo parecendo uma volta aos valores tradicionais ou um resgate às tradições culturais ameaçadas. Mas não é.

Todavia, se hoje até funqueiros da pesada, ou bregas mais explícitos como Waldick Soriano, são elogiados cegamente pela mídia, deixando nossa sofrida cultura encurralada num beco-sem-saída da cafonice dominante, também os sambregas como Alexandre Pires e Belo (defendidos por um Eugênio Raggi arrogante e irônico) e breganejos como Daniel e Leonardo (defendidos por um Olavo Bruno arrogante e irônico) recebem este apoio cego de gente infuenciada de uma forma ou de outra pela mídia gorda.

O que a indústria faz é apenas "amestrar" os neo-bregas num trabalho luxuoso e pomposo. Chega a ser ridículo haver pessoas que atacam a MPB autêntica por ela sofisticar demais os arranjos, quando os neo-bregas são elogiados por fazerem justamente a mesma coisa.

Se a MPB passou por uma fase comercial e pasteurizada no final dos anos 70 e começo dos anos 80, o que motiva críticas justas mas também ataques exagerados, no entanto é essa mesma "MPB pasteurizada", que causa nojo aos críticos mais cegos, que serve de fonte para a "sofisticação" neo-brega que esses mesmos críticos elogiam e defendem. O breganejo Daniel copiou da cantora Simone a idéia de usar a assinatura como logotipo.

Os neo-bregas não têm luz própria, precisam se apoiar em clássicos alheios para se autopromoverem. Qual é o "clássico" do cantor Daniel? Nenhum. "Estoy (sic) apaixonado", cantará algum desavisado. Mas isso é de uma inexpressiva dupla estrangeira jogada numa trilha de novela da Globo. João Paulo & Daniel é que gravaram uma versão.

E olha que os grandes nomes da MPB autêntica são figuras humanas verdadeiras, são artistas autênticos, enquanto os neo-bregas (que querem se equiparar aos primeiros, mas não podem) precisam de muita tecnologia, muito marketing e muita pompa para fazerem algo próximo ao de um simulacro de MPB. Simulacro que anda iludindo uns e provocando a cegueira de outros, estes os que espinafram este blog.

Passados os anos, ninguém vai se lembrar do que "artistas" como Daniel, Leonardo, Belo e Alexandre Pires gravaram em suas carreiras.

Um comentário:

Marcelo Delfino disse...

Alexandre, esse assunto Música de Cabresto Brasileira não terá fim tão cedo. Passo para você uma resenha publicada hoje na coluna Estúdio, de Mauro Ferreira (O Dia):

DVD Junto e Misturado - Fazendo a Festa - Latino

Tem sabor populista a mistureba feita por Latino neste DVD gravado em novembro de 2008 em São Paulo. A lista de convidados já diz tudo, indo do grupo Art Popular à funkeira Perlla, passando pelo Double You. Na seleção, hits infantis de Xuxa se misturam com temas de Tim Maia e Raul Seixas (!).