quarta-feira, 23 de setembro de 2009

INTELECTUAL DÁ RECADO INDIRETO AO PAULO CÉSAR ARAÚJO


Todo mundo sabe que o principal marketing do livro Eu Não Sou Cachorro, Não, de Paulo César Araújo, está no fato dos principais ídolos bregas, incluindo Waldick Soriano e Odair José, terem suas músicas sido censuradas durante a ditadura militar.

PC Araújo trata esse fato como se fosse a "maior virtude" dos cantores bregas em detrimento da MPB autêntica, que o autor tentou passar uma imagem falsa de "chapa branca dos militares".

O livro, aliás, tenta, numa linguagem típica de teorias conspiratórias fajutas, insistir na tese duvidosa de que Waldick Soriano é um "cantor de protesto". Até comparações com "Opinião" do sambista Zé Kéti foram feitas para tentar promover a "nova imagem" do mais antiquado dos ídolos bregas. E tentou dizer, em tom de pergunta, que "Eu não sou cachorro, não" poderia ser endereçada ao patrão, ao policial e outras autoridades. Tudo isso em argumentações cuja veracidade é bastante discutível.

Pois, quatro anos antes do livro de PC Araújo ser lançado, um livro com vários textos, Trabalho, Cultura e Cidadania: Um Balanço da História Social Brasileira, organizado por Ângela Maria Carneiro Araújo (não, não é parente do PC dos bregas), conta com um texto do professor da Escola de Comunicação e Artes da USP, Marco Antônio Guerra.

Eu peguei esse livro para tirar cópia em xerox de um texto do Antônio Augusto Arantes, ex-diretor do IPHAN, mas li o texto de Marco Antônio e resolvi tirar cópia dele, também.

Marco Antônio fala, entre outras coisas, das distorções em torno da memória histórica oficial e da apropriação da ditadura militar de parte de projetos educacionais progressistas (esvaziando, no entanto, sua essência), como o uso de algumas idéias de Paulo Freire do radiofônico Projeto Minerva (eu pude ouvir esse programa algumas vezes, quando criança).

Mas a cutucada que interessa aqui se dirige ao Paulo César Araújo - hoje tido como "herói" entre a intelectualidade, sobretudo devido a uma biografia de Roberto Carlos cuja comercialização foi proibida - , que explicitamente escreveu o primeiro livro, sobre música brega, sob o ponto de vista de fã (ele chega a admitir isso em suas entrevistas). Este recado põe em xeque quem, como Paulo César Araújo, acredita que a censura enobrece sempre a reputação de suas vítimas. Neste caso, recomenda-se procurar o livro de Beatriz Kushnir, Cães de Guarda, que faz uma análise objetiva da censura ditatorial, rompendo com a idéia maniqueísta que oficialmente se faz entre censores e censurados.

Aqui está o parágrafo de Marco Antônio Guerra que questiona a mitificação em torno dos censurados da ditadura:

A questão fica mais complexa e assume uma relação maniqueísta nos anos 70, quando era comum a censura ser um recibo de qualidade: se o artista fosse censurado significava que ele havia produzido algo muito bom; a censura passava um recibo de inteligência, de bom nível, de algo muito bem estruturado e muito bem feito. O tempo provou que não: quando se tem o resgate dessas coisas, o que era necessário ser feito em função da memória nacional, tudo aquilo que estava na censura tinha de sair da gaveta; tinha de ser montado no palco, ouvido em discos, lido nos livros etc, mesmo que tivesse envelhecido, porque foi um ajuste de contas com algo que nos foi tirado. Mas muitas coisas eram ruins mesmo, ficou claro que eram ruins, que não eram boas nem no ponto de vista estético, nem do da produção cultural, nem de coisa nenhuma. Mas haviam criado uma aura e mitificaram o produtor como algo de qualidade ou como algo engajado, exatamente porque nos anos 70 havia apenas dois campos: dos mocinhos e dos bandidos. Os bandidos nós sabemos quem eram, mas os mocinhos..., fica uma grande dúvida sobre isso. (grifo meu)

Um comentário:

Marcelo Delfino disse...

Sem contar que muitos servidores da Censura Federal eram conservadores, muitos deles com valores católicos muito profundos. De modo que censuravam muita coisa ruim que se chocava com seus valores conservadores. Nem sei como deixaram gravar aquela música Viva o Divórcio, de Eduardo Araújo em parceria com Carlos Imperial...

Poderiam entrevistar alguns censores da época, hoje provavelmente aposentados.

Como dito antes, censura não faz um trabalho ruim virar um bom trabalho.