quarta-feira, 9 de setembro de 2009

E NOSSOS FILHOS CANTAM AS MESMAS CANÇÕES


A música dos Beatles serviu de inspiração para o ginecologista das celebridades, Malcolm Montgomery, lançar um livro sobre a juventude a partir da interpretação das canções dos fab four.

O próprio Malcolm faz parte de um "quarteto" de empresários ou profissionais liberais que, embora casados com mulheres mais jovens, têm seu comportamento, sua personalidade, com seus hábitos e valores, mais voltado para os padrões sisudos de "maturidade" e "elegância", por mais que tentem ser joviais. Os outros três "rapazes" são Roberto Justus, Almir Ghiaroni e Eduardo Menga, respectivamente empresário-publicitário, oftalmologista e empresário-diretor de TV.

Malcolm, como os outros três, nasceu no decorrer da década de 50, como já dissemos noutra oportunidade. É uma geração bem diferente da dos EUA e Europa, porque se dividiu entre aqueles que mantiveram o estado de espírito da Contracultura (Evandro Mesquita, Serginho Groisman, Lulu Santos) e aqueles que aderiram à reviravolta granfina dos anos 70 (Roberto Justus, Almir Ghiaroni, Malcolm Montgomery), principalmente por causa da dedicação profissional sobrecarregada, aliada à subordinação a padrões de elegância da época.

O livro é até bem intencionado, citando as várias fazes dos quatro rapazes de Liverpool, e isso ganhou êxito sobretudo pela ajuda do consultor musical Fernando Nuno, músico de rock setentista brasileiro e especialista em Beatles no país. Fernando Nuno também prefaciou o livro.

A metodologia utilizada foi a interpretação das letras das canções dos Beatles, junto à eventual citação de informações sobre a trajetória do grupo, sob o ponto de vista de um ginecologista analisando o comportamento e a personalidade dos jovens.

Embora seja um livro correto e bem feito, não é difícil notar o pecado do livro, com algumas passagens moralistas bem no estilo paternal. Sabemos que LSD é prejudicial, por exemplo, mas a forma como que Malcolm escreve isso é sintomática de sua geração, ao trabalhar um tema juvenil sob o ponto de vista dos mais velhos.

Nesse sentido, a impressão que se tem é que a geração de Malcolm sonharia em escrever livros tipo "Nós cantamos a música dos nossos pais", falando de Frank Sinatra ou Bing Crosby, de um universo tardiamente adotado por essa geração de cinquentões, não de uma forma natural de saudosismo, mas por uma nostalgia pedante feita para impressionar seus mestres ou colegas mais velhos.

Em suma, o livro de Malcolm Montgomery certamente é um livro sobre os Beatles, mas numa perspectiva mais próxima do universo comportado dos pais mais caretas. É um livro sobre o "lado A" mais acessível dos quatro fabulosos.

Mas certamente E nossos filhos cantam as mesmas canções não é um livro recomendado para quem aprecia o "lado B" dos Beatles - de petardos hard como "Helker Skelter" ou esquisitices como "Revolution # 9", "From benefit to Mr. Kite" e "I am the Walrus" - , quando os quatro rapazes de Liverpool se distanciam dos cantores românticos e orquestras de musak, que querem regravar suas músicas, para se juntarem a uma turma que a geração de Malcolm Montgomery nem sempre vê com bons olhos: Rolling Stones, The Who, Jimi Hendrix, The Byrds e até o Pink Floyd de Syd Barrett, cujo primeiro LP Piper at the Gates of Dawn foi gravado no mesmo Abbey Road e na mesma época do Sgt. Pepper's Loney Hearts Club Band, naquele ano de 1967.

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