sexta-feira, 4 de setembro de 2009

DE REPENTE, 30


Quem nasceu a partir de 1978 praticamente viu o trem da história tendo percorrido, bem antes, muitas trajetórias. No Brasil, a geração pós-1978 teve que penar, porque nasceu e cresceu num país sem referências e em total crise de valores que permite a libertinagem, o pragmatismo, o "fisiologismo" político e a supremacia decisória dos tecnocratas nos destinos da humanidade.

Até mesmo a Contracultura e o movimento punk já eram coisas do passado para esse pessoal, que nasceu sob a hegemonia da crise da arte - onde música, pintura, cinema, teatro etc se rendiam ao canto-da-sereia pop e se vendiam para o comercialismo muitas vezes chulo, mas noutras superficial - , do desprezo aos intelectuais, da falta de grandes líderes políticos, da crise educacional em níveis gritantes.

Essa geração até agora vivenciou três eventos de grande repercussão mundial: o atentado ao World Trade Center em 2001, a morte do Papa João Paulo II em 2004 e o falecimento do astro pop Michael Jackson, o primeiro grande ídolo que foi referência direta para a geração pós-1978. Outros ídolos falecidos não tinham tanta relevância para essa geração, se comparados a Michael: Ayrton Senna, Diana Spencer, Mamonas Assassinas e Cássia Eller. E Kurt Cobain foi um grande ídolo apenas dentro do segmento roqueiro.

Quem nasceu depois de 1978, nos EUA, teve situação melhor. Claro que enfrentaram o lerolero grunge e o pop dançante rotulado falsamente de "rhythm and blues" (nome originalmente dado ao blues eletrificado e mais dançante, espécie de pré-rock'n'roll), além de tentar engolir a bobagem do poser metal, que a geração de 1968 a 1977 já consumia como se fosse um "bubblegum do rock pesado". Mas pelo menos a televisão preserva sua memória histórica, e nos EUA a juventude pós-1978 não tem medo de ouvir jazz, folk, rock autêntico, e a pasteurização do radialismo rock, que no Brasil ocorreu nos anos 90, lá nos EUA havia ocorrido nos 80, com repercussões bastante negativas. Em certas cidades dos EUA, as rádios de rock autênticas haviam retornado nos anos 90, algumas bem mais estilizadas, com emissoras específicas de rock alternativo, de metal, de punk, de antiguidades.

Quem nasceu na Europa depois de 1978, teve situação melhor ainda. O pessoal se manteve ligado a valores tradicionais, sem temer as novidades, numa continuidade histórica saudável. O pessoal ouvia música eletrônica mas reconhecia o valor da música clássica, dos cantores antigos etc. E não tinha o menor preconceito em assistir a filmes da Nouvelle Vague, por exemplo. Lê livros com desenvoltura, mescla valores novos e antigos com equilíbrio e sensatez. Uma mocinha nascida em 1981 pode ler um livro de 1956 sem fazer cara feia.

No Brasil, infelizmente, a geração pós-1978 nasceu num período de decadência de valores. A ditadura militar que prometia salvar o país o deixou em falência. Os pais, sendo esquerdistas desiludidos ou direitistas triunfantes, davam aos filhos a impressão de que toda a luta do país por melhorias, nos anos 60, não fez sentido algum.

O pior é que essa juventude sofreu, a partir dos anos 80, toda uma assimilação de valores duvidosos. Os pais, seja por ocupação profissional, seja pela instabilidade conjugal que levava, muitas vezes, a sucessivos divórcios e trocas de cônjuges, colocavam seus filhos para os cuidados de empregadas domésticas mais infantis que as crianças que elas cuidavam. As classes pobres haviam sido manipuladas pela mídia coronelista para consumir música brega. Nos fins de semana, os pais, querendo agradar aos filhinhos, lhes davam festinhas como se todo sábado e domingo fosse aniversário dessas crianças.

O resultado não podia ser outro. A geração pós-1978, no Brasil, salvo honrosas exceções, tornou-se uma geração afeita a valores duvidosos, a referenciais cafonas e a uma obsessão compulsiva por festas noturnas - que a mídia grande lhes fez apelidar como "baladas" - , tornando-se uma geração inútil, sem valores, sem qualquer capacidade criadora e crítica.

As exceções existem, sim. Mas calcula-se que elas estão em torno de 30% em todo o Brasil, e a maior parte destes 30% no Sul e Sudeste, locais onde o quadro educacional era melhor e a situação profissional dos pais era mais próspera, o que evitava em muitos casos o abandono desnecessário das crianças.

Muito da evolução da parte boa da geração pós-1978 se deve às excepcionais dedicações dos pais a esses jovens, além de um convívio com gerações mais velhas na Universidade e no mercado profissional. Mesmo assim, até esses jovens cometeram o erro de, aos 23 ou 25 anos, falarem que nem adolescentes, abusando da gíria "galera" e falando a gíria "balada", ambas empobrecedoras de vocabulário, quando falar "família", "grupo", "colegas" e "equipe" no lugar de "galera" e "boate", "bar", "noitada" e "festa" no lugar de "balada" não soa antiquado nem deixa de ser moderno. Neste sentido, os jovens dos países anglo-saxônicos têm vantagem: eles continuam no bom e velho "I go to the party with my friends" ("Vou pra festa com meus amigos") e não deixam de ser inteligentes, modernos e super-informados das novidades do mundo.

Uma reportagem de 2001 do Megazine, caderno juvenil de O Globo, mostrou até pessoas que, embora nascidas depois de 1978, se identificavam com décadas e referenciais anteriores ao seu nascimento. Um rapaz nascido em 1979 tinha tal identificação com o início dos anos 60 (ou seja, 1960-1964), que tinha até um Willys Dauphine (depois conhecido como Gordini).

"BANDA PODRE" ESTRAGA A GERAÇÃO PÓS-78

Mas a geração que também produziu Marcelo Adnet e Roberta Sá, Pitty Webo e Priscila Fantin, na sua maior parte é composta por gente arrogante, que despreza os valores do passado, só pensa em farra e ainda por cima é capaz de espinafrar os mais velhos só por uma pequena discordância. É a "banda podre" da geração pós-1978, que se comporta como crianças mal-criadas até depois dos 25 anos, fechadas no seu tempo (geralmente o pior dos anos 80-90), vários mergulhados em excessos (como álcool, drogas, pornografia, violência física, verbal e até digital - mandam vírus por computador), mas mesmo assim se achando "tudo de bom", que é o que eles classificam de pessoa cheia de virtudes.

Essa "banda podre" é o que há de mais reacionário, irresponsável e perigoso entre os jovens de hoje. São pessoas ao mesmo tempo submissas aos fenômenos da grande mídia e dotadas dos mais baixos valores sociais, morais e culturais. Essa má juventude chega ao cinismo de dizer que são "inteligentes" por nada e que "odeiam hipocrisia", quando eles são a mais extrema e recente manifestação de hipocrisia no Brasil. Muitos desses jovens são até empregados da mídia ou dos ídolos trabalhados por essa mídia. Falam feito surfistas caricatos e se irritam com a maior facilidade. Até as garotas dessa "banda podre" são grosseiras, arrogantes e vulgares.

Trata-se de gente grossa, que existe aos montes, mas cujo desprezo ao passado é "recompensado" com frequentes mortes de seus próprios amigos, seja pela violência, pelo álcool, pelas drogas e pelos acidentes no trânsito, tudo consequência de uma vida desregrada, cheia de risco. Por isso que qualquer foto tirada do celular por esses jovens irresponsáveis pode vir a ser recordação do passado a qualquer momento, se, por exemplo, quatro desses amigos morrerem por conta da embriaguez de quem dirigir um carro. Esse pessoal defende os valores mais baixos, nunca conheceu a música de verdade e, se ouve falar dela, acha logo uma "coisa chata", "insuportável".

Infelizmente, no Orkut, essa má juventude, a "banda podre" da geração pós-1978, vende a imagem de "dona da verdade", impondo valores duvidosos até para quem não quer acreditar neles. São os pseudo-rebeldes impondo conformismo, pseudo-esquerdistas com valores neoliberais, pseudo-nerds praticando bullying contra os verdadeiros nerds, gente reacionária que se faz de "progressista", mascarando suas idéias retrógradas com discurso ao mesmo tempo "cabeça" e "humanitário", dentro do figurino politicamente correto.

Essa má juventude infelizmente tem o apoio da grande mídia, que, contraditoriamente, condena apenas seus eventuais excessos (como espancar empregadas domésticas em ponto de ônibus ou morrerem junto aos amigos em acidentes de carro provocados pela embriaguez).

Perdidos entre o conservadorismo extremo das idéias e a subversão aparente dos gestos e palavrões, essa geração pós-1978, que tenta ser hegemônica sobre a parte boa de sua geração, vê seus primeiros trintões desde o ano passado, no seu primeiro contato com a maturidade biológica. Trintões, terão que rever seus métodos e valores, seja pela ridicularidade explícita dos referenciais duvidosos em moda desde os anos 80 e em alta nos 90, seja pela reação crescente não só dos "titios" mais velhos, mas de gente de sua geração mesmo que aprende o ridículo de um "funk", de uma axé-music, de uma pornografia grotesca, de uma politicagem travestida de "cidadania".

A "banda podre" da geração pós-1978 terá que enfrentar uma geração mais jovem e bem mais informada, que mostrará aos então jovens de hoje o quanto suas idéias "modernas" são antiquadas. E aí não adiantará os hoje jovens, futuros "titios", chamarem seus filhos de "viados", "fdp" nem brindar seus e-mails com vírus de macro. Os maus jovens de hoje serão "titios" tristes e terão que chorar diante da falência inevitável de seus valores e ídolos de caráter duvidoso.

CARATERÍSTICAS BÁSICAS DA GERAÇÃO PÓS-1978 NO BRASIL

Podem haver exceções, e certamente há, mas o perfil médio do jovem nascido depois de 1978 segue essas caraterísticas:

1. A maioria depende do hit-parade para desenvolver seu gosto musical;

2. Ainda falam gírias adolescentes que empobrecem seu vocabulário: "galera" no lugar de "turma", "família", "equipe" e "grupo de colegas", e "balada" no lugar de "festa", "noitada", "bar", "boate" e "danceteria";

3. Possuem ainda uma noção confusa de cultura de vanguarda, a ponto de atribuir como tais alguns referenciais mais próximos do comercialismo explícito, como Michael Jackson e Steven Spielberg;

4. Não conseguem "garimpar" para conhecer referenciais culturais menos acessíveis;

5. Pouca disposição para expressar o senso crítico; levam tempo para adotar uma posição autocrítica de seus erros;

6. Uma virtude é a fácil adaptação a novas tecnologias; informática, por exemplo, são capazes de aprender sem a ajuda de um professor;

7. Outra virtude é a intuição que, bem utilizada, pode fazê-los compensar a não vivência de tempos passados para uma compreensão intuitiva das épocas em que não viveram pessoalmente;

8. Frequentador compulsivo de festas noturnas e de todo tipo de curtição;

9. Pouca inclinação para estilos musicais realmente sofisticados, como o jazz, o rock alternativo (mesmo! nada de grunge ou pós-grunge), a MPB autêntica e a música clássica. Normalmente se inclinam mais para estilos ligados à tecnologia, como música eletrônica e hip hop, ou ao marketing da grande mídia, como os ritmos do brega-popularesco (como "funk carioca", axé-music, sambrega, porno-pagode e breganejo);

10. A escolaridade deficiente lhes trouxe dificuldade para ler textos longos, sobretudo através dos livros, e de frequentar eventos culturais diversificados; isso os faz escrever errado na Internet e limitar as opções de lazer, colocando a televisão no lugar do cinema e do teatro, o rádio FM no lugar da leitura de livros e na livre audição de CDs, e até os desfiles de moda no lugar das visitas a exposições de artes plásticas.

Um comentário:

Marcelo Delfino disse...

A gíria "galera" é mais antiga que se pensa. Outro dia ouvi, a Rádio Globo reproduzindo uma narração de um gol do Campeonato Brasileiro de 1971 em que o locutor se referia à torcida como "galera".

Outra coisa que temos que avaliar é até que ponto a geração ointentista do bom rock brasileiro (falo de Titãs, Barão Vermelho, Cazuza, Legião Urbana, Paralamas, Plebe Rude, Lobão, etc) marcou a vida desses jovens pós-1978.