domingo, 13 de setembro de 2009

A CREDULIDADE INTELECTUAL EM PROL DO "FUNK CARIOCA"


No café literário de ontem, na Bienal do Livro do Rio de Janeiro, os autores falaram sobre o tema "Quando a periferia torna-se centro", e manifestaram sua condescendência e credulidade em torno do "funk carioca". Acreditam que, com o "funk", a periferia fala sem intermediários e que a rejeição sofrida pelo ritmo é fruto de preconceito comparável ao do samba.

Vamos ler aqui uma frase do escritor Ecio Salles, um dos presentes (os outros eram Sérgio Vaz e o famoso Zuenir Ventura), para notarmos a ingenuidade dos intelectuais: "No passado o samba também era alvo de preconceito. O primeiro passo para acabar com o preconceito é conhecendo. Eu tinha uma imagem errada dos bailes até ir a um".

Pobre Ecio. Ou, como diz o Casseta & Planeta, rico Ecio. Coitada da intelectualidade que, acomodada nos seus apartamentos à beira-mar, vê a vida dos subúrbios com um deslumbramento que não corresponde à realidade.

Não dá para comparar a rejeição do "funk" com a do samba no passado. De jeito nenhum. Afirmar isso é ver a sociedade do passado com os olhos de hoje, desconhecendo que o passado foi outra coisa. A sociedade brasileira que rejeitou o samba era rigorosamente moralista, sisuda, extremamente pomposa e racista. O samba era rejeitado porque, além de fugir do rigor moral da sociedade da época (século XIX e primórdios do século XX), era feito por negros e pobres, num tempo em que reivindicar salários dava cadeia e ser pobre era bem mais difícil que hoje, sem qualquer tipo de programa político que lhe desse melhorias sociais efetivas.

Pois hoje vivemos numa sociedade bem mais aberta, mais tolerante e até solidária com os pobres, e o racismo hoje é considerado crime. É anacrônico o discurso de que a rejeição do "funk" é fruto de "preconceito", "moralismo" e "racismo". Quem rejeita o "funk carioca" reconhece o valor de uma infinidade de artistas negros, de Donga a Dona Ivone Lara, de Jackson do Pandeiro a Elza Soares, de Agostinho dos Santos a Teresa Cristina, passando por Wilson Simonal, Milton Nascimento, Gilberto Gil e Seu Jorge.

O "funk carioca" é uma ARMAÇÃO de empresários que atuam também como disc-jóqueis, e que se enriquecem com toda essa lorota de "ritmo da periferia" e outras baboseiras que envolvem o ritmo. Musicalmente (se é que pode chamar o "funk" de música), é grotesco, ruim de doer, e isso não é adjetivação barata, não, é só ouvir um "funk" para você perceber que é um lixo.

Há 100 anos, o samba tinha beleza, decência, inteligência, o rigor moral é que estava cego e surdo para o ritmo. Mas hoje, o "funk" é o grotesco do grotesco, mulheres exibindo brutalmente seus glúteos sem o menor respeito, tudo na maior libertinagem.

O samba, não. O samba tinha respeito, tanto que as primeiras escolas de samba foram uma solução das tias baianas e outros que organizavam rodas de samba para evitar que esses eventos sejam considerados criminosos e seus lugares invadidos pela polícia, a prender quem estiver pela frente. Comparar isso a um "funk" de glúteos empinados peidando na cara do espectador, cujas letras ou são protetos tolos e frouxos (como o "Rap da Felicidade"), ou são pornografia barata ("Siririca") ou alusões ao crime ("Cerol na Mão"), é ser, no mínimo, ingênuo.

A intelectualidade cai, que nem passarinho em arapuca, nesse discurso. Se você, leitor, se deixar levar por todo esse discurso em favor do "funk carioca", vai achar tudo tão lindo que vai ver beleza onde não existe. Mas se você botar um CD de "funk" para ouvir, vai perceber muito bem que todo esse discurso lindo e maravilhoso se resume a sete letras: MENTIRA.

APAFUNK - Agora que MC Leonardo e os tais Amigos e Profissionais do Funk (APAFUNK) estão de mãos dadas com a mídia gorda e com as autoridades fluminenses, depois daquela reunião na Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro que favoreceu os funqueiros, agora vão se reunir com o Ministro da Cultura, Juca Ferreira (PV-BA), para pedir, em caráter federal, proteção ao "funk", além de manifestar o fantasioso desejo de ver o ritmo popularesco transformado em "patrimônio cultural" (com aspas, mesmo).

Meu irmão Marcelo Pereira, do blog Planeta Laranja, tem razão quando afirma que o "funk", desesperado, necessita da tutela legal para garantir uma reputação que naturalmente é INCAPAZ de conquistar sem esforço.

Vale lembrar que o samba nunca precisou de tutela legal para se legitimar. E, quando foi considerado patrimônio cultural, pelos técnicos do IPHAN e não por parlamentares fisiológicos (estes é que vão converter o "funk" em "patrimônio", contrariando todo um processo técnico), o samba já havia conquistado naturalmente sua reputação de verdadeira cultura popular.

Um comentário:

Marcelo Delfino disse...

Já não se fazem mais intelectuais como antigamente. Os caras devoram livros, estudam muito e escrevem muito, adquirem conhecimento, mas nenhuma sabedoria. Tanto que, na Bienal de 2007, eu só pude discutir com Paulo Cesar Ferreira (o biógrafo dos bregas) a respeito da censura ao seu livro Roberto Carlos em Detalhes, que nem é tão bom assim. Não podia mesmo discutir assuntos mais profundos ou atemporais. E hoje, vi o professor Leonardo Boff, que dava autógravos na Bienal. Vai ver, o homem que aceita de bom grado dar entrevistas para a Folha Universal também apoia o funk carioca, já que é simpatizante do PSOL, o Partido dos Funqueiros.