sexta-feira, 4 de setembro de 2009

A CONTUNDÊNCIA DO PUNK E O CONFORMISMO DO "FUNK"


ADEUS CARNE, álbum de 1987 dos Inocentes, que inclui a música "Pátria Amada".

Falam que "funk carioca" é "cidadania". Que o ritmo é um "grito de revolta do povo pobre" - até "Siririca", "Boladona", "Eguinha Pocotó" e "Créu" são "músicas de protesto"? - e outras lorotas. Vai um DJ funqueiro falar essas bobagens e recebe aplausos da platéia idiotizada. E livros, ensaios, reportagens, documentários são feitos a partir dessas lorotas e bobagens.

Mas, como O Kylocyclo investe na informação, vamos comparar o "protesto" funqueiro com uma das letras mais combativas do Rock Brasil. Estamos falando dos Inocentes, ícone do punk rock paulistano, cuja força contestatória surpreendeu até os ingleses, já que perto do que Inocentes, Cólera e Ratos do Porão fizeram juntos, o que os Sex Pistols faziam parecia brincadeira de criança.

Vamos então comparar "Pátria Amada", uma das letras fortes dos Inocentes, com "Rap da Felicidade" (sic), de MC Cidinho & MC Doca, que muitos defensores do "funk" acham "contundente" mas que nós, numa análise aprofundada, achamos a letra bastante conformista, confusa e vaga, porque não sugere ruptura alguma com o sistema de dominação em que o povo favelado vive.

Vamos lá.

Pátria Amada
Inocentes


Pátria Amada, é pra você esta canção
Desesperada, canção de desilusão
Não há mais nada entre eu e você
Eu fui traído e não fiz por merecer

Pátria Amada, cantei hinos em seu louvor
Mas tudo o que fiz de nada adiantou
Na boca amarga ainda resta esse perdão
Pátria Amada, é pra você esta canção
Desesperada, canção de desilusão
Não há mais nada entre eu e você
Eu fui traído e não fiz por merecer

Pátria Amada, cantei hinos em seu louvor
Mas tudo o que fiz de nada adiantou
Na boca amarga ainda resta esse perdão
Que diz pra morrer por ti e não importa a razão

Pátria Amada, como pude acreditar
Em palavras vazias e promessas soltas no ar
Pátria Amada, você me decepcionou
Quando eu lhe pedi justiça você me negou

Pátria Amada

Pátria Amada, de quem você é afinal?
É do povo nas ruas
Ou do Congresso Nacional?

Pátria Amada, idolatrada,
salve, salve-se quem puder


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Rap da Felicidade
Mc Cidinho e Doca


Eu só quero é ser feliz,
Andar tranqüilamente na favela onde eu nasci, é.
E poder me orgulhar,
E ter a consciência que o pobre tem seu lugar.
[fé em deus, dj]

Eu só quero é ser feliz,
Andar tranqüilamente na favela onde eu nasci, é.
E poder me orgulhar,
E ter a consciência que o pobre tem seu lugar.
Mas eu só quero é ser feliz, feliz, feliz, feliz,
Feliz, onde eu nasci, han.
E poder me orgulhar e ter a consciência que o pobre
Tem seu lugar.

Minha cara autoridade, eu já não sei o que fazer,
Com tanta violência eu sinto medo de viver.
Pois moro na favela e sou muito desrespeitado,
A tristeza e alegria que caminham lado a lado.
Eu faço uma oração para uma santa protetora,
Mas sou interrompido à tiros de metralhadora.
Enquanto os ricos moram numa casa grande e bela,
O pobre é humilhado, esculachado na favela.
Já não aguento mais essa onda de violência,
Só peço a autoridade um pouco mais de competência.

Eu só quero é ser feliz,
Andar tranqüilamente na favela onde eu nasci, han.
E poder me orgulhar,
E ter a consciência que o pobre tem seu lugar.
Mas eu só quero é ser feliz, feliz, feliz, feliz,
Feliz, onde eu nasci, é.
E poder me orgulhar e ter a consciência que o pobre
Tem seu lugar.

Diversão hoje em dia, não podemos nem pensar.
Pois até lá nos bailes, eles vem nos humilhar.
Fica lá na praça que era tudo tão normal,
Agora virou moda a violência no local.
Pessoas inocentes, que não tem nada a ver,
Estão perdendo hoje o seu direito de viver.
Nunca vi cartão postal que se destaque uma favela,
Só vejo paisagem muito linda e muito bela.
Quem vai pro exterior da favela sente saudade,
O gringo vem aqui e não conhece a realidade.
Vai pra zona sul, pra conhecer água de côco,
E o pobre na favela, vive passando sufoco.
Trocaram a presidência, uma nova esperança,
Sofri na tempestade, agora eu quero abonança.
O povo tem a força, precisa descobrir,
Se eles lá não fazem nada, faremos tudo daqui.

Eu só quero é ser feliz,
Andar tranqüilamente na favela onde eu nasci, é.
E poder me orgulhar,
E ter a consciência que o pobre tem seu lugar, eu.
Eu, só quero é ser feliz, feliz, feliz, feliz, feliz,
Onde eu nasci, han.
E poder me orgulhar, é,
O pobre tem o seu lugar.

Diversão hoje em dia, nem pensar.
Pois até lá nos bailes, eles vem nos humilhar.
Fica lá na praça que era tudo tão normal,
Agora virou moda a violência no local.
Pessoas inocentes, que não tem nada a ver,
Estão perdendo hoje o seu direito de viver.
Nunca vi cartão postal que se destaque uma favela,
Só vejo paisagem muito linda e muito bela.
Quem vai pro exterior da favela sente saudade,
O gringo vem aqui e não conhece a realidade.
Vai pra zona sul, pra conhecer água de côco,
E o pobre na favela, passando sufoco.
Trocada a presidência, uma nova esperança,
Sofri na tempestade, agora eu quero abonança.
O povo tem a força, só precisa descobrir,
Se eles lá não fazem nada, faremos tudo daqui.

Eu só quero é ser feliz,
Andar tranqüilamente na favela onde eu nasci, é.
E poder me orgulhar,
E ter a consciência que o pobre tem seu lugar, é.

Um comentário:

Marcelo Delfino disse...

Caramba. Fiquei tão contente no dia em que comprei esse disco dos Inocentes em CD. Ele foi relançado em um único disco junto com o álbum Pânico em SP, numa daquelas reedições magistrais do grande batera Charles Gavin, dos Titãs.

Essa música Pátria Amada habita meu MP3 player.

Quanto ao Rap da Felicidade, uma vez ouvi um diácono (que hoje deve ser padre) fazendo elogios ao refrão desta música (?), que ele diz ter ouvido numa favela que ele visitou em seu trabalho missionário.

Jamais faltará assunto para meu blog Brasil, um País de Tolos.