segunda-feira, 10 de agosto de 2009

TELECINE CULT COMETE ERRO E NINGUÉM PERCEBE


Essa os "líderes de opinião" se comportaram da forma mais relapsa possível, e a platéia toda comeu sua pipoca sem perceber que erro o Telecine Cult cometeu. Feito "descolados" embasbacados - expressão difícil esta, não é mesmo? Mas o pessoal mais culto dos anos 50/60 ainda usava esta palavra - , acham natural um canal dedicado, em tese, ao cinema "alternativo", passar até Robocop.

Todos vendo bangue-bangue num canal dedicado a filmes alternativos e ninguém estranhando. Todos felizes, felizes, porque agora John Wayne e Alain Delon "têm agora" o mesmo status. Será que ninguém percebeu o grande erro, a grande falha do Telecine Cult?

É um erro que poderia contar de um texto próprio no site Falha Nossa. Posso dizer isso com segurança.

Mas aí o rapagão numa comunidade do Orkut escreveu um comentário cujo sentido se resume a isto: "Ah, mas com tanto filme de violência e sexo por aí, chamar até bangue-bangue de 'alternativo' tem tudo a ver".

Ah, mas se até os filmes de Stallone, Van Damme, Charles Bronson etc. agora também viraram "cult", então o Brasil é mesmo o FEBEAPÁ que nosso grande mestre Sérgio Porto, e que é impossível dizer que "alguma coisa está errada", já que não se trata mais de "alguma coisa", mas de MUITA COISA, mesmo.

Quem conhece a história do cinema, e a luta dos especialistas em cinema no Brasil - entre eles gente como Alex Viany, Jean-Claude Bernardet e Walter da Silveira - , sabe muito bem que o erro do Telecine Cult é creditar o cinema comercial dos EUA e produções similares como "cinema alternativo".

No final dos anos 50, havia cineclubes e cinematecas que exibiram filmes anti-comerciais, que hoje conhecemos como o verdadeiro cinema alternativo. As tendências principais são o neorealismo italiano e a nouvelle vague francesa. Esses filmes surgiram para expressar valores que eram desprezados pelo mundo da fantasia de Hollywood, o cinema dominante desde então.

A partir dessa mentalidade alternativa, compartilhada também na época por poucos cineastas audaciosos dos EUA (Orson Welles é seu exemplo maior, já que Hollywood desprezou seus projetos audaciosos, "It's all true" abalaria todas as estruturas do cinema mundial e a indústria não queria correr riscos).

O cinema alternativo criou então um novo mercado, que não era o de Hollywood, e a partir daí vieram vários movimentos de cinema independente, como o cinema independente iraniano, o Cinema Novo brasileiro, o cinema independente americano e por aí vai. Por favor, não creditar assim o cinema comercial produzido fora dos EUA. Bollywood não é necessariamente cinema alternativo, por favor!!

Mas o pessoal "descolado", que dormiu ouvindo Menudo para acordar tentando decifrar o som do Velvet Underground, quer consumir alta cultura sem raciocinar. E aí acham que o cinema comercial dos EUA é "alternativo" porque o cinema atual "caiu" em qualidade. Mas vejo os filmes recentes dos EUA e eles não são diferentes dos que foram feitos há 50, 60 anos atrás.

Histórias bem feitas? Sim, Hollywood, na sua fase áurea, produzia boas histórias. Mas era tudo ficção, um mundo de ilusão, fantasia, que não correspondia aos valores e perspectivas do público alternativo de cinema. Chamar o cinema comercial dos EUA de alternativo porque tem boas histórias é como dizer que o Big Mac do McDonalds é comida vegetariana só porque tem salada. Tenha santa paciência!!

O melhor que a rede Telecine deverá fazer é retomar o nome Telecine Classic. Esqueçam as desculpas utilizadas para o Telecine Cult. Chega de lero-lero. Queremos coerência. Coerência acima de pretensiosismos, de rótulos de mercado "mais atraentes" porém menos lógicos.

Para quem acha que bangue-bangue também é "cinema alternativo", é bom prestar muita atenção às reprises do desenho do Pica-Pau. Em alguns episódios, há uma gozação explícita com a mania do "povão" estadunidense de assistir ao faroeste da TV, ou seja, Walter Lantz tratava o bangue-bangue como sinônimo de "baixa cultura".

4 comentários:

Marcelo Delfino disse...

De cara, esse canal Telecine Cult deveria banir toda a produção de Hollywood e produções do circuitão interno de qualquer país, incluídos aí os filmes de Bollywood e quase todos os filmes brasileiros da chamada "Retomada". Principalmente os filmes-TV da Globo Filmes.

Se querem abrir exceções, que abram para filmes tipo os de Stanley Kubrick.

Se não mudarem nada, que retomem o nome Telecine Classic. Ou Telecine Clássicos, que seria muito mais elegante.

Quanto ao sujeito que disse que bangue-bangue é alternativa a filmes violentos, ele deve ter menos de 10% do nível de inteligência de Forrest Gump.

Marcelo Delfino disse...

E olha que gosto do filme RoboCop 2, o melhor da franquia. Foi dirigido pelo mesmo Irvin Kershner do clássico O Império Contra-Ataca.

Mas daí a dizer que esses filmes são cult ou alternativos, é muita ingenuidade ou muita má-fé.

Anônimo disse...

Tem um similar a este em br.geocities.com/preserveoam/telecinecult.htm, que agora não existe mais, pois o host geocities foi descontinuado pelo Yahoo!. Mas ainda pode-se ler pelo cache do Google em

http://www.google.com.br/url?sa=t&source=web&ct=clnk&cd=1&url=http%3A%2F%2F74.125.113.132%2Fsearch%3Fq%3Dcache%3As0j8c73pyAEJ%3Abr.geocities.com%2Fpreserveoam%2Ftelecinecult.htm%2Btelecine%2Bcult%2Balternativo%26cd%3D1%26hl%3Dpt-BR%26ct%3Dclnk%26gl%3Dbr&ei=wna1Sthl0oXxBvurkboO&usg=AFQjCNGokW9JdNE8wKkFMgbkep074h3v7g&sig2=t9H_vUd2FICyadLKcQC7IA

Nicus disse...

Estou de acordo.
Mas talvez não seja pretencioso eu dizer que Bollywood não seria exibido em nenhum outro canal. Ou seria?