sábado, 15 de agosto de 2009

OS 40 ANOS DE WOODSTOCK


Há 40 anos, foi realizado um festival de rock e música folk que representou o auge de um período de idealismo juvenil chamado Contracultura.

Sabemos que a Contracultura não ocorreu somente em 1968 e 1969. Na verdade, ela ocorreu desde o ano de 1960, era só ver as mobilizações estudantis já fervilhando nessa época. E no Brasil, também se mobilizou muito, vide os Centros Populares de Cultura, que começaram a ser pensados logo no "amanhecer" dos anos 60.

Eram sonhos de mobilização, de transformação de mentes, de solidariedade, de respeito, de coragem, de senso crítico. E, acima de tudo, criatividade. A inteligência não surgiu do acaso e nem era defendida na pose, mas surgiu da curiosidade dos jovens na busca pelo conhecimento, principal arma para combater a caretice moral dos mais velhos, e era defendida na essência, através do debate, da expressão do pensamento, da criação.

Não vou aqui detalhar muito como foram os anos 60, uma década muito rica para ser resumida de forma adequada num tópico como este. Mas dá para dizer algumas coisas. O rock, desgastado nos EUA, foi revitalizado pelos ingleses e por californianos na primeira metade da década. Vieram as diversas novidades da moda, artes plásticas, filosofia, comportamento etc.. Um período fértil de criatividade se viu. Grandes músicos, inúmeros, numa só época. E muitas idéias, novas atitudes, que pareciam anunciar uma verdadeira revolução humana.

Woodstock nem foi o primeiro e nem mais significativo festival de rock da década. O Festival de Monterey, de 1967, foi mais ousado. Mas Woodstock causou mais repercussão, pelas caraterísticas próprias: festival ao ar livre, com enorme capacidade de público, e uma platéia que parecia estar no paraíso, com seu comportamento ao mesmo tempo inocente e alucinado.

Nem todos aderiram ao Woodstock. Beatles, Bob Dylan e o emergente Led Zeppelin, que havia lançado seus primeiros dois LPs em 1969, não foram ao festival. Mas o Who foi. E tinha de Jimi Hendrix e Janis Joplin, ambos em plena ascensão, a Incredible String Band, uma excelente banda folk. Também não vou citar todo o elenco, que é uma lista enorme. E quem entende de cultura rock sabe muito bem.

É claro que Woodstock foi um divisor de águas. Para o bem e para o mal. O sucesso do evento banalizou de tal forma o ideal hippie - melhor representado pelo comportamento porralouca do militante Abbie Hoffman - que até os jovens mais caretas pegaram carona no estilo flower power, a mesma facção careta que havia boicotado a segunda fase dos Beatles.

Na verdade, Woodstock apenas foi um refresco para o ocaso da Contracultura. Foi seu canto de cisne. Em 1968, a tragédia de Tlatelolco, no México, a invasão soviética em Praga, na antiga Tchecoslováquia, o Chicago Trial nos EUA, o abandono do apoio dos operários aos estudantes de Paris e o AI-5 no Brasil foram fatos que encerraram já em 68 a era da Contracultura. A Família Manson, com sua chacina, faria também sua parte sepultando de vez a Contracultura, estimulando a reação moralista dos anos 70 e seu ideal de badalação, luxo e elegância (que sobretudo educou, no Brasil, a então jovem geração Justus-Ghiaroni-Montgomery).

Mas o fim dos últimos suspiros do idealismo juvenil nos anos 80, a crise de valores agravada nos anos 90, com a tecnologia e o neoliberalismo ditando os padrões sociais, fez desaparecer todo aquele sonho que ainda era evocado em Woodstock, em 1969, mesmo tendo esse sonho se encerrado com as crises de 1968 e com a Família Manson. Os jovens dos anos 90 para cá tornaram-se pragmáticos, individualistas, consumistas, conformistas e conservadores, salvo exceções. Para eles os beatniks, os militantes estudantis, os roqueiros psicodélicos, os intelectuais, ninguém lhes traz algum significado.

E no Brasil onde a juventude atual foi educada à base de Xuxa, Gugu Liberato e Aqui Agora, foi empurrada para o 011 1406 e recebia dos pais, na infância, festinhas todo fim de semana (o que influiu no vício dessa juventude nas noitadas), o idealismo de Woodstock só é lembrado pela mídia, que, na sua missão informativa (nem sempre cumprida adequadamente), não pode menosprezar datas marcantes, enquanto a juventude que acha até Lady Gaga genial e pensa que Michael Jackson foi roqueiro despreza o festival de 1969 como se este tivesse sido um bacanal de hippies e metaleiros (!) antiquados.

Woodstock teve dois festivais-tributo, um em 1994 e outro em 1999. Ambos eram apenas eventos de rock dos anos 90, totalmente convencionais, e, embora as platéias caprichassem no visual bicho-grilo - mas com elementos adicionais lançados pelo grunge - , os dois eventos em nada lembravam da força e da personalidade cultural do original.

Um filme sobre Woodstock está em produção, sob a direção de Ang Lee. Em 1970, Michael Lang já havia produzido o mais famoso documentário sobre o evento.

Um comentário:

Edilson Trekking disse...

Seria em Woodstock o inicio da cultura mochileira? Se foi...então eu fui influenciado nesse ponto,também, pela contracultura. É uma liberdade indescrítivel viajar de mochila visitando, conhecendo outras culturas,principalmente ás de dificil acesso, como por exemplo os quilombolas no Mato Grosso.