domingo, 9 de agosto de 2009

O GOSTO MUSICAL DOS HOMENS SISUDOS


Qual o som que o homem sisudo brasileiro ouve?

Sabendo que os homens sisudos que aqui são citados são empresários, profissionais liberais e executivos que geralmente jogaram os prazeres da juventude no lixo e que moldaram suas personalidades à custa de muita regra de etiqueta e de um convívio, exagerado e reverente ao extremo, com profissionais bem mais velhos, vamos aqui comentar sobre o gosto musical desses homens. Gente que até sorri e conta piadas, mas que inevitavelmente só tratam os mais jovens de maneira paternal, de tão escravos da "maturidade" são esses homens sisudos.

Vamos nos concentrar nos sisudos nascidos nos anos 50 e nos sisudos nascidos nos anos 60. Gente mais velha do que eu (tenho 38), mas isso não importa muito. Ou melhor, não importa no sentido da idade ser mais vantajosa, até porque meu olhar clínico em analisar o gosto musical deles é como se os pegasse com a boca na botija.

BORN IN THE 50'S

Uma das coisas dignas de cinema surreal é que o perfil dos empresários, executivos e profissionais liberais brasileiros nascidos nos anos 50 é muito mais envelhecido do que o de artistas e ativistas culturais nascidos na mesma geração. Se verificarmos que Almir Ghiaroni, Roberto Justus, Eduardo Menga e Malcolm Montgomery nasceram até um pouco depois de Serginho Groisman, Lulu Santos, Evandro Mesquita e até de Fábio Sampaio da banda punk Olho Seco (nascido em 1950), então alguma coisa está errada.

E se Roberto Justus soubesse que tem a mesma idade que os três remanescentes da banda The Clash (Mick Jones, Paul Simonon e Topper Headon), o que ele acharia? Mas a geração de Roberto Justus peca por se comportar como se fosse o "rabo de geração" para os homens nascidos nos anos 40?

Esse comportamento se dá por três motivos:

1) O Brasil, atrasado, mal começava a se deliciar com o padrão de vida dos EUA, vigente desde a Política da Boa Vizinhança do presidente Franklin Roosevelt. Isso reflete no deslumbramento da geração Justus, nascida desde 1950, até hoje chorando pela morte de Glenn Miller e não procurando alguém mais moderno que Frank Sinatra e Bing Crosby (e já nem se lembram mais do Dick Haymes, que cantou "Marie" com a orquestra de Tommy Dorsey na gravação de 1949).

2) O atraso brasileiro fez com que o país tivesse uma estrutura predominantemente rural, até 1956. Com ela, ainda prevaleciam valores morais rígidos, como a subordinação aos mais velhos que, do contrário que se imaginava, pouco valorizou a lição dos mais experientes. Mesmo assim, isso influiu para que os antigos garotões da geração Roberto Justus romperem com a vida juvenil - Ferris Bueller sentiria pena deles - e partissem para imitar o estilo de vida dos mais velhos, caprichando sobretudo no padrão de elegância copiado de revistas dos anos 70 e que permanece o mesmo, apenas com pequenas adaptações aos dias atuais.

3) A ditadura militar e os excessos do movimento da Contracultura, em todo o mundo, fizeram com que os moralistas mais adultos, no final dos anos 60, condenassem o poder jovem e, no Brasil ditatorial mergulhado no AI-5, ter personalidade jovem virou sinônimo de ser irresponsável. Com isso, ao entrarem na faculdade, a geração de Roberto Justus, Almir Ghiaroni, Malcolm Montgomery e companhia passou a aprender que o máximo é usar terno e gravata a toda hora, falar sempre como se estivesse fazendo um seminário no Othon Palace Hotel e ouvir músicas que sejam o meio-termo entre o romântico e o orquestrado. Os discos do Led Zeppelin e Rolling Stones, desta forma, eram vendidos para os sebos.

Com isso, essa geração passou a ostentar um repertório referencial pedante, cultuando o passado não por nostalgia saudável, mas como uma forma de parecerem mais "maduros" e "respeitáveis" diante de seus colegas mais velhos e seus mestres. Falam de Glenn Miller como se ele tivesse sido um tio deles. Apreciam a fase áurea de Hollywood como se fosse a Disneylândia deles. Sonhavam dançar como Fred Astaire nos bailes do Copacabana Palace. No entanto, não conseguem estabelecer diferença entre standards de Hollywood e jazz, e a impressão que temos é que eles vêem como "jazz" todo evento musical que tenha orquestras, repertório comportado e gente granfina, uma festa em black tie, como diriam os colunistas sociais dos anos 50, uns já investindo na então moderna abreviatura hi-so para high society, imitando o hi-fi do high fidelity.

Os sisudos nascidos nos anos 50 eram "titios yuppies" nos anos 80, década que eles desprezam completamente. Pior: em muitos casos, eles hoje são maridos de moças que curtiram seus áureos dias de adolescência nos anos 80. Acaba sendo inevitável que essas moças "envelheçam" e tenham que trocar a Legião Urbana pela orquestra de Mantovani.

É curioso, também, que essa geração de homens sisudos evite citar nomes veteranos da MPB (fora Tom Jobim), como Chico Buarque, para que seu gosto musical busque se confundir menos possível com o gosto das gerações mais jovens. Por isso mesmo é que eles enfatizam mais o gosto por veteranos da linha de Charles Aznavour, Ella Fitzgerald (ah, com Benny Carter a tiracolo - "essa a Sandy não vai me copiar", dirá o sisudo), Frank Sinatra, Nat King Cole, Bing Crosby e, sobretudo, Glenn Miller, com muito "Moonlight serenade". Mas nada que os faça muito sabidões em música: além de terem esquecido Dick Haymes, pouco se lembram do "Route 66" senão na voz de Nat Cole. E nem sabem que seu compositor foi Bobby Troup, músico marido de Julie London ("como era ela, mesmo...Parecida com a Rita Hayworth?", divagará um sisudo).

Dos Beatles, única banda de rock que dizem apreciar, se limitam a ouvir músicas mais românticas, tipo "Hey Jude", "Yesterday", "Something" (claro, Sarah Vaughan gravou...), "Eleanor Rigby", "Let it be" e "The long and Winding Road". "Helter Skelter", nem pensar. "I'm down" parece punk rock. "Good morning, good morning" é muito esquisita. De John, Paul, George e Ringo, somente canções que dão para reunir toda a família, vovô e vovó incluídos. Rolling Stones, Who, Led Zeppelin, Cream, Jimi Hendrix continuam desprezíveis para esses sisudos.

Para seus pesadelos, o cancioneiro dos "anos 50" (na ótica dos homens sisudos, podendo tanto ser uma música de 1943 como de 1961) foi regravado nos anos 80. Depeche Mode gravou "Route 66". Echo & The Bunnymen incluiu "When I fall in love" como incidental na música deles, "Do it Clean", em versão ao vivo. O u2 gravou "Night and day" de Cole Porter e Bono duetou com Frank Sinatra. Fora "My Way", que Paul Anka compôs para Sinatra cantar, que virou hino punk no final dos anos 70 (mas com repercussões nos anos 80), via Sid Vicious, e "What a Wonderful World", sucesso tardio e não-jazzístico de Louis Armstrong que ganhou versão na voz de Joey Ramone. Sem falar que Stray Cats, os irmãos Marsalis e Harry Connick Jr. levaram os anos 50 dos sonhos dos homens sisudos para os anos 80 de suas cansativas jornadas de trabalho.

A GERAÇÃO NASCIDA NOS ANOS 60

Mais moderninha que a geração nascida na década anterior, já começa a esboçar sinais de sisudez. Não veste terno, gravata e sapatos de couro ou verniz a qualquer hora, tem mais disposição até para fazer rally no deserto ou passeios de ciclismo na serra (assim vamos denominar o mountain bike, para tentar educar a moçada), e uns até surfam, ainda que raros.

Mesmo assim, exibem ar de cansaço quando vão com suas belíssimas esposas ao supermercado. Exibem ar de estresse, ainda falam muito de trabalho na empresa, no consultório, no escritório etc., quando estão nas festas com os amigos.

No gosto musical, até são receptivos ao rock. Mas, mesmo assim, seguem a cartilha do sisudo: músicas mais românticas. De Eric Clapton, por exemplo, eles desprezam o Cream e só valorizam o Clapton de "Tears in Heaven", da versão MTV Unplugged de "Layla" (inferior à original, apesar do bem intencionado arranjo blues).

Do Rod Stewart, desprezam a fase Jeff Beck Group/Faces. Preferem a fase mais pop do final dos anos 70 em diante. Com o tributo à música americana, chega o sisudo nascido nos anos 50 e, maravilhado com o jeitão crooner de Rod ("Puxa, lembra Sinatra!", regojiza-se o sisudo), pede para o sisudo mais novo lhe emprestar o disco. Mas, na edição nacional, há o infame dueto de Alexandre Pires (que deve ter gravado voz em separado, porque os produtores de Rod, dizem, não gostaram do cantor neo-brega mineiro), então o sisudo mais velho diz "deixa pra lá".

No grosso, o gosto musical dos sisudos nascidos nos anos 60 se concentra na geração de roqueiros ingleses que se envolveram em eventos filantrópicos e passaram a fazer baladas: Sting, Phil Collins, Dire Straits, Rod Stewart, Eric Clapton e similares.

São mais receptivos à MPB e até ao Rock Brasil, mas é aquela coisa: dos Titãs, são incapazes de ouvir coisas como "Homem primata" e "Massacre". Mas se for "Epitáfio", eles estão dentro. Da Legião Urbana, quase todo o primeiro LP é desprezível, mas mesmo a música "Por enquanto" virou sucesso na voz de Cássia Eller. Mas se for "Angra dos Reis", "Andréa Dória" e "Pais e Filhos", tudo bem.

2 comentários:

Marcelo Delfino disse...

Não que os homens sisudos sejam sujeitos maus. A maioria é do bem. Mas deve ser chato pra caramba conviver ou conversar com um homem desses.

O Kylocyclo disse...

Marcelo, eu sei disso. Os homens sisudos são simpáticos, gentis, educados, etc..

Mas o grande problema é eles serem vistos como o modelo ideal de homem, e isso eles estão muito longe de serem. Para eles serem galãs e terem as melhores mulheres do mundo, eles ainda têm que tomar muito Nesquik, além de muito arroz com feijão (de preferência com batata frita).