quarta-feira, 19 de agosto de 2009

IMPRENSA PATRONAL: ANJ COMEMORA 30 ANOS


A Associação Nacional de Jornais comemora 30 anos de criação. Ontem houve uma cerimônia envolvendo os grandes executivos da mídia, e discursos foram feitos em nome da "liberdade de expressão", palavra linda mas vazia de sentido verdadeiro, porém tão utilizada pelos barões da imprensa conservadora.

Pois foi a ANJ que propôs a dispensa da exigência do diploma para interessados em se tornar jornalistas. Uma lorota que anda iludindo muita gente boa, que acredita que o fim do diploma aumentará as vozes de defesa da cidadania. Grande mentira.

Em primeiro lugar, devemos desfazer vários mitos:

1) LIBERDADE DE EXPRESSÃO, PENSAMENTO, INFORMAÇÃO E IMPRENSA - Esses quatro elementos, tão usados como sinônimos, são coisas totalmente diferentes, embora se integrem ocasionalmente. Liberdade de expressão é a liberdade de fazer ou dizer alguma coisa e mostrar para outras pessoas. Liberdade de pensamento é a liberdade de desenvolver e expressar o pensamento. Liberdade de informação é a liberdade de transmitir dados e conhecimentos. Liberdade de imprensa é a liberdade de veículos que trabalham com jornalismo funcionem numa dada sociedade. Só que os sonhadores deslumbrados da mídia gordinha (já que a mídia gorda é vista por estas pessoas como se fosse uma "bruxa má") confundem tudo e, daí para confundir o direito de qualquer cidadão de pensar e expressar seu pensamento com o direito de alguns profissionais de imprensa mais destacados em expressar seu pensamento, é um pulo.

2) JORNALISMO NÃO É O PROFISSIONAL DA CIDADANIA - Jornalista é aquele que transmite informações, independente de sua missão em ajudar ou depreciar a humanidade. Essa profissão tem caráter neutro, e não é o jornalismo que é "cidadão", mas alguns profissionais de imprensa, identificados com os problemas sociais, que se comprometem em defender as causas sociais, dentro de sua missão profissional. Tomem muito cuidado, no entanto, com as armadilhas do discurso. Há somente poucos jornalistas que se comprometem, de fato, com a cidadania, mas os outros, sem qualquer compromisso com a cidadania, pegam carona no prestígio dos primeiros.

3) DISPENSA DO DIPLOMA É UMA AFRONTA À EDUCAÇÃO - Enquanto as pessoas cretinamente deslumbradas acreditam que a dispensa do diploma tornará o jornalismo mais "cidadão", elas mal conseguem ver que o ato aprovado pelo Supremo Tribunal Federal em favor da ANJ é um ataque à Educação brasileira, desmoralizando todo um processo árduo de criação e desenvolvimento das faculdades de Comunicação. O diploma é desvalorizado e tido como "lixo burocrático", desprezando o verdadeiro significado do diploma de jornalismo, que é de comprovar uma formação acadêmica onde se aprendem procedimentos responsáveis na profissão jornalística, como saber falar e escrever, saber a história da Comunicação, os tipos de redação de textos existentes, os erros éticos, gramaticais etc que devem ser evitados, e por aí vai. Cursar uma faculdade de Comunicação ou Jornalismo não deve ser vista como perda de tempo ou elitismo. Para tornar o jornalismo mais democrático, o ideal seria democratizar também o ensino superior de jornalismo.

4) DISPENSA DO DIPLOMA SÓ EMBURRECERÁ A IMPRENSA - Dispensar a exigência do diploma jornalístico para profissionais de imprensa não trará mais vozes para os meios de comunicação e nem transformará a imprensa num meio plural e cidadão. Só fará o jornalismo se tornar mais burro, mais tendencioso, mesmo aparentemente "na melhor das intenções". Vai ter mais gente que não sabe a diferença entre crônica e resenha, que escreverá textos em português errado, que cometerá até mesmo equívocos éticos. E mesmo que o rigor das empresas de comunicação crie um padrão "profissionalmente correto" para ser seguido, ele não será mais do que mera "linha de montagem" que irá domesticar o mau jornalista, o que não o fará um excelente profissional, mas uma marionete que apenas fará um trabalho "razoável", que garanta o sucesso do veículo de imprensa no qual faz parte e que não represente riscos à estabilidade empresarial deste mesmo veículo. O que não é tarefa muito fácil, aliás.

Por isso mesmo, para aqueles que acham que jornalismo sem diploma é mais "cidadão", vamos ver se esse pessoal continuará pensando assim daqui a cinco ou dez anos.

Um comentário:

Marcelo Delfino disse...

Diga-se de passagem que um dos membros do clã Marinho recebeu um diploma em nome das Organizações Globo. E o Jornal Nacional sequer citou O Globo, que é o principal jornal do grupo e o verdadeiro motivo pelo qual o grupo Globo está na ANJ.

Essa ANJ está mais para ABM (Associação de Barões da Mídia).