quinta-feira, 27 de agosto de 2009

"FUNK CARIOCA" E TWIST


O que vocês lerão a seguir é uma lição para funkeiros e popularescos em geral que, no Brasil, tentam promover a falsa imagem "militante" desses estilos.

Em 1960, o rock, estando em baixa, devido ao desgaste dos já então veteranos dos anos 50 junto à tragédia que envolveu talentos emergentes, deu lugar, nos EUA, a ritmos dançantes descartáveis e a cantores piegas que tomarem completamente o gosto juvenil daquele país.

Um dos destaques foi o twist, ritmo dançante lançado pelo cantor Chubby Checker naquele mesmo ano em que os brasileiros viram mudar-se a capital federal. O twist banalizava os elementos de rock cinquentista sem no entanto assimilar seu estado de espírito. Sua dança consistia apenas em dobrar os braços e as pernas e mover estas para baixo, num contexto diferente de "balançar até o chão".

Paralelamente ao twist, havia cantores românticos jovens que representavam uma resposta piegas ao fenômeno Elvis Presley. Muitos astros inexpressivos surgiram e desapareceram com o tempo, e tinha até astro do futebol americano bancando "cantor de rock". Mas alguns se destacaram no sucesso comercial, como Pat Boone, Ricky Nelson, Neil Sedaka, Paul Anka, entre outros. Não confundi-los com roqueiros autênticos que apareceram na mesma época como Dion, Del Shannon e, curiosamente, Ronnie James Dio, que fazia um som bem mais comportado mas tão autenticamente roqueiro quanto sua adesão posterior ao rock pesado, sua especialidade atual.

O twist e o "rock comportadinho" fizeram um enorme sucesso pelo mundo, influindo até no pessoal brasileiro da Jovem Guarda. Mas nem por isso havia tanta pretensão assim. Eram tendências comerciais, modismos, nada que fosse levado a sério.

Mas o brega-popularesco brasileiro de hoje carrega de muito pretensiosismo. O "funk carioca" vende a imagem de "movimento cultural" com todo um discurso que não corresponde à realidade do estilo. E outras tendências popularescas, da música brega "de raiz" à axé-music e breganejo, todas elas usam um discurso "social", mesmo que seja apenas para dizer que são "vítimas de preconceito".

Waldick Soriano, Odair José, Banda Calypso, Chiclete Com Banana, É O Tchan, Alexandre Pires, Zezé Di Camargo & Luciano etc, todos de alguma forma usaram algum discurso "social" que garantisse a eles algo mais do que um modismo. Mas o "funk carioca" é que leva às últimas consequências esse discurso, apostando em qualquer retórica que associe o ritmo a "movimentos sócio-culturais", sem escrúpulos de fazer qualquer comparação delirante a outros fenômenos neste sentido. Houve quem tratasse o "movimento funk carioca" como a volta do "borogodó carioca" perdido há 50 anos.

Só que esse pretensiosismo todo faz do brega-popularesco um universo musical arrogante, metido, e não o enobrece em coisa alguma com esse discurso. O discurso "social" dos ritmos brega-popularescos em nada os enobrece musicalmente, só servindo para justificar que sua música de gosto e qualidade bem duvidosas prolongue seu sucesso comercial. Tudo o que se fala a favor de Waldick Soriano, Zezé Di Camargo e DJ Marlboro, por exemplo, não vai fazer suas músicas ficarem mais agradáveis. Tanto é que a "reabilitação" midiática de Odair José, Fernando Mendes e Wando não refletiu numa melhor reputação de suas músicas.

Além disso, imagine se Chubby Checker dissesse que o twist era uma "música de protesto". Imagine alguém dizer que Pat Boone era mais engajado que Bob Dylan. Ou que Ricky Nelson e Bobby Darin foram os líderes da Contracultura em detrimento de "pequeno-burgueses" folk que só se recusavam a ir para o Vietnam. Não faz sentido, por mais que o suposto "revisionista" - na prática um verdadeiro falsificador histórico - venha com discursos engenhosos.

Mas, no Brasil onde 90% da população não sabe coisa com coisa, devido à miséria, sub-alfabetização ou analfabetismo, e onde a mídia está entregue a elites ávidas pela concentração de poder, farsantes como Paulo César Araújo, tal qual os vendilhões da Igreja Universal, fazem um discurso envolvente e os incautos logo aplaudem. O "líder de opinião", então, aplaude de pé.

Mas o ponto vai para o pop descartável de 1958-1961 que, se era comercial e inexpressivo artísticamente, pelo menos era bem menos pretensioso do que o arrogante brega-popularesco de nossos dias.

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