domingo, 2 de agosto de 2009

DISCO RISCADO: NOTICIÁRIOS "SÉRIOS" INSISTEM NA DECADENTE GÍRIA "BALADA"



A gíria "balada" era para ter caído em desuso por não ter pé nem cabeça.

Sabemos que nenhuma hipótese cogitada para entender o porquê desta gíria tornou-se sequer plausível. Corruptela de "badala"? Não, não seria possível um rapagão influente entre os jovens cometer tal "escorregada". Derivativo da gíria "bala"? Esta gíria nem é das mais usadas entre os jovens. Derivativo de "baile"? Não, a palavra nem é tão forte no vocabulário dos jovens e "bailada" nem sequer deu "olá" no colóquio juvenil.

Portanto, a gíria "balada" não passa de um jargão artificial inventado nos escritórios por DJs, publicitários, empresários da "noite" e gente ligada ao mercado clubber. Esta gíria, aliás, teima em não ser gíria, contrariando a natural vida fugaz que as verdadeiras gírias possuem. A gíria "balada" tem até departamento comercial, esquema de marketing e até de mershandising, e conta até com adeptos da pesada, como vi no Orkut, com uma agressividade e um reacionarismo dignos do Comando de Caça aos Comunistas.

Pois se a gíria sobrevive nos sites sobre celebridades, ainda vai. Esses sites são o paraíso astral da burrice, do sensacionalismo, da futilidade, e sobretudo dos textos muito mal escritos. Sites que chamam grupos vocais, sem instrumentista algum, como "bandas", e ficam bajulando calamidades musicais tipo Calcinha Preta, Chiclete Com Banana e Alexandre Pires, não podem ser levados a sério.

Mas daí para a gíria "balada" sobreviver até em telejornais considerados "sérios", simplesmente é INACEITÁVEL.

Nas últimas semanas, os telejornais da Rede Record e até o Hoje, da Rede Globo, não pronunciam mais as palavras "festas", "boates", "agitos noturnos", tudo ficando na preguiçosa gíria "balada", que já vem das ordens editoriais.

Fica muito desagradável ver notícias assim. Porque sabe-se que a gíria "balada" é tão ridícula que muitos jovens a pronunciam como se quisessem cuspir saliva de repente. Virou gíria de panaca, aliás, só trocando as letras "l" e "d" de "balada" pelo "b" e "c" respectivamente para ver o real sentido da gíria.

Não custa um telejornal falar coisas do tipo: "a dica de beleza vai para a moça que irá a uma festa na danceteria", "os jovens se reúnem na boate para tomar cerveja", "nos agitos noturnos os jovens consomem várias calorias". Mas, nada disso ocorre, e tudo vira "balada".

Por isso desligar a televisão é uma grande pedida para evitar coloquialismos excessivos e desnecessários nos noticiários. Nem adianta o pessoal dos noticiários arrumarem desculpas como "queremos usar uma linguagem mais simples", "os jovens também assistem os (sic) telejornais", que essas desculpas são inúteis. Um vocabulário bem cuidado não é bicho de sete cabeças para as mentes juvenis.

PARNASIANISMO ÀS AVESSAS

Aliás, esse uso obsessivo das gírias "balada" e "galera", ambas desgastadíssimas, significa um parnasianismo às avessas.

O parnasianismo foi um movimento poético do início do século XX que se marcou pelo discurso excessivamente formal, pelos versos calculados à régua, pelo pretenso lirismo sem alma das palavras rebuscadas, do discurso "solene", do helenismo de mármore que em nada lembra o lirismo da poesia helênica da Antiguidade. O parnasianismo foi praticamente sepultado a pá de cal pelo movimento modernista de 1922.

A comparação com o parnasianismo não parece ter sentido, se muitos acham que a mídia adota as gírias "balada" e "galera" para dar um clima de informalidade na dramaturgia e no jornalismo.

No entanto, a obsessão por essas gírias é, sim, um parnasianismo às avessas. Afinal, embora haja o pretexto da informalidade, ele se dá justamente de forma forçada, obsessiva, e não menos calculada do que a métrica dos versos parnasianos.

As duas gírias em nada contribuem para a espontaneidade do discurso, da mesma forma que ninguém, em outros tempos, ia passar a vida toda botando as gírias "bicho" e "chuchu beleza" em dramaturgias e telejornais alegando "um discurso informal".

Essa informalidade aparente esconde uma formalidade, como nos poemas paranasianos, e tanto no caso desse movimento poético quanto no uso da mídia das gírias "balada" e "galera", tudo soa forçado, sem graça, sem vida, sem alma.

Enquanto isso, nos países desenvolvidos, os jovens mais inteligentes, modernos e sensatos possuem um vocabulário mais cuidado. Em inglês, eles continuam falando "I go to the parties with my friends" e não a tradução da patética "Vou pra balada c'a galera" (com direito a cacófato e tudo): "I go to the ballad with my crew". Ser patético, no Primeiro Mundo, é out.

Um comentário:

Marcelo Delfino disse...

Fico imaginando um apresentador do Jornal Nacional anunciando a chegada do homem à Lua, há quarenta anos atrás:

"O astronauta Neil Armstrong chegou hoje com seu carango ao solo lunar".

Até os jovens daquela época reclamariam da falta de seriedade do telejornal com um assunto tão importante.

De lá para cá, mudaram os jovens ou mudaram os editores dos telejornais?