quinta-feira, 30 de julho de 2009

THE SOUND OF THE SMITHS



Quem era muito criança nos anos 80 não pôde acompanhar direito a trajetória dos Smiths, a não ser quem morava em Niterói, Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba e Porto Alegre e tinha a sorte de ter o pai ou a mãe ouvindo assiduamente alguma das rádios autenticamente rock que irradiavam nesses locais.

Eu era adolescente, morava em Niterói e ouvia a Fluminense FM, e acompanhava a trajetória de minha banda favorita, os Smiths, cujo cantor Morrissey, hoje em carreira solo, até hoje faz letras sobre carência afetiva e desilusões amorosas, de uma forma bem rara e dificilmente vista na música brasileira, por exemplo.

Os Smiths, banda de Manchester, Inglaterra, em seus poucos anos tiveram uma produtividade imensa. Eram cerca de dois discos por ano, geralmente um álbum de inéditas e outro com faixas de compacto. Muitos de seus hits não constavam originalmente em LPs, como "Panic" e "Ask", de 1986, ano em que a banda lançava um compacto atrás de outro que não constava no corrente álbum The Queen is Dead. Era uma festa para mim ouvir cada música nova dos Smiths.

O grupo acabou porque Johnny Marr, o grandioso guitarrista e compositor das melodias do grupo, estava estressado com os compromissos do quarteto, e recebia convites para tocar com outros artistas. Até Keith Richards, dos Rolling Stones, se ajoelhou a Johnny Marr, o que não dá para entender por que o hoje ex-guitarrista dos Smiths não é considerado um dos maiores dos últimos tempos e, em particular, dos anos 80. Sobretudo num tempo em que muitos acham Lady Gaga genial, pensam que o brega-popularesco é a "nova MPB" e que o poser metal é o classic rock de sua geração.

Pois Johnny é um guitarrista tão genial que até mesmo o controverso pop dançante (da linha soft do New Order) do Electronic, projeto dele e de Bernard Sumner (Joy Division, New Order e agora Bad Lieutennants) tem suas belas marcas. Particularmente, eu gosto do Electronic. E as marcas de que falo estão em músicas como "Second Nature" e "Get the Message".

Quem conhece a guitarra de Johnny Marr sabe que, mesmo nos acordes mais suaves, ele põe qualquer solista poser - e olha que os Smiths nada têm a ver com metal, seja verdadeiro ou falso - pra correr, bota até o Richie Sambora para sambar junto aos seus irmãos de hype do Exaltasamba (quem lê este blog sabe que o sambrega é o poser metal brasileiro, no sentido do pretensiosismo e no "carisma" para a bitolada juventude noctívaga).

Nos anos 90, os Smiths tiveram o absurdo de, no Brasil, serem tidos como quase desconhecidos. As rádios de rock autênticas desapareceram, no lugar vieram aquelas ridículas rádios irrit-pareide rotuladas de "rádios rock", com seus produtores temperamentais e arrogantes que faziam "radialismo rock à moda da casa", por sinal uma mistura de Caldeirão do Huck com Hell's Angels.

Como seria inevitável nesses antros da incompetência humana, essas "rádios rock" que eram protegidas da Bizz fase 1991-1998 e da Ilustrada da Folha de São Paulo só tocavam, quando muito, umas cinco músicas dos Smiths. Era, tão somente "This Charming Man", "Heaven Knows I'm Miserable Now", "Ask", "The Boy With The Thorn in His Side" e "There's a Light That Never Goes Out". Ou pouco além disso.

Nessa época, era moda a crítica musical brasileira - maravilhada com os posers e com o grunge, isso porque Kurt Cobain não cuspiu nos críticos brasileiros e Rob Zombie não fez qualquer assombro nos pesadelos deles - falar mal do Morrissey, tido como "decadente", "velho", "chato", etc. Para piorar, Morrissey viveu um período delicado, rompendo com muitos amigos, abandonando Manchester, e tendo que indenizar os ex-integrantes dos Smiths, Andy Rourke, Craig Gannon e sobretudo Mike Joyce, num processo movido por este último com o apoio dos outros contra Morrissey & Marr, com o fim de exigir pagamento de royalties pela participação dos três nos discos da banda (Craig só gravou uns dois compactos, se não me engano).

Morrissey passou por uma fase de depressão. Teve complicações burocráticas que o impediu de gravar novos discos. Mas deu a volta por cima e hoje dá continuidade à sua carreira solo, singela mas de excelente qualidade, agora com Martin Boz Boorer e Alain White se alternando nas melodias.

Mas o assunto aqui é a coletânea The Sound of The Smiths, comemorativa dos 25 anos dos primeiros dois LPs do grupo, The Smiths e Hatful of Hollow - este lançado no meio de 1984 - , e que pela primeira vez no Brasil lança duas faixas até agora inéditas, "Wonderful Woman" (dedicada à atriz Sharon Tate, uma das vítimas fatais da chacina da Família Manson, cujo líder Charles Manson chegou a virar ídolo no carnaval grunge/poser dos EUA) e "Jeane".

Outra façanha da coletânea é o lançamento da versão "New York Vocal" de "This Charming Man", que tocou até em rádios pop brasileiras mas teve cadeira cativa nas rádios de rock de verdade.

Depois do fim dos Smiths, só foram editadas coletâneas que eram apenas "mais do mesmo". Só reproduziam o conteúdo das coletâneas The World Won't Listen, Hatful of Hollow e Louder Than Bombs junto ao dos álbuns de estúdio. Discos dispensáveis, apesar das belas capas.

Mas agora The Sound of The Smiths, que aparece aqui em duas capas diferentes, embora tenha também o material lançado nos LPs da banda, pelo menos tem a preocupação de ir além, mostrando também faixas menos acessíveis.

E, com o hoje cinquentão Morrissey alegrando a gente com seu talento e sua lucidez, relembrar os Smiths pode ser útil até para quem, criança nos anos 80, se isolava no Trem da Alegria, Xuxa e Dr. Silvana & Cia., e que, nos anos 90, só tinha à sua escolha o oba-oba grunge e o lero-lero brega-popularesco. É uma boa oportunidade para ver que a trajetória dos Smiths é muito mais rica do que cinco músicas tocadas em rádios pseudo-roqueiras poderiam sugerir.

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