sexta-feira, 10 de julho de 2009

MPB COMEÇA A DESAPARECER DAS RÁDIOS



Triste notícia para quem gosta de cultura de verdade.

A MPB autêntica já sofre o destino que temíamos: começa a desaparecer das rádios do Brasil, substituídas por uma música pseudo-popular patrocinada por latifundiários, empresários de eletrodomésticos e supermercados e por políticos de direita, que a grande mídia define como "música popular".

Enquanto se multiplicam rádios tocando axé-music, breganejo, sambrega, "funk" e outros estilos da Música de Cabresto Brasileira, a MPB, que na maior parte das cidades do país só tem acesso secundário às chamadas rádios de "adulto contemporâneo", fora rádios educativas e as pouquíssimas FMs especializadas que possui (cinco afiliadas da Nova Brasil FM e a carioca MPB FM), cada vez mais vê suas músicas se tornarem mais raras no cardápio radiofônico, não bastasse o humilhante ritual de artistas emergentes da MPB de colocarem uma música na trilha da novela das sete da Rede Globo para entrarem no espaço de divulgação da grande mídia.

Sim, isso mesmo. O artista de MPB só começa a "existir" mesmo quando põe sua música na trilha da novela das sete da Globo. Sem isso, não entra nas rádios, não é reconhecido, e os elogios da crítica morrem antes das primeiras manchas amarelas das páginas dos jornais impressos.

Milton Nascimento havia lançado novo disco, Novas Bossas, no ano passado, e passou despercebido da maioria das rádios. Isso, em se tratando de um cantor que já lançou um clássico no começo de carreira, Travessia, em 1967 (fala-se não só da canção homônima, mas do álbum inteiro), sob as bênçãos de Agostinho dos Santos e respeitado sobretudo por Tom Jobim. O amigo de Milton, Chico Buarque, outro grande talento da MPB, só é conhecido na grande mídia por seus galanteios amorosos dos últimos anos.

Para piorar, com a saída da maioria dos medalhões da MPB das grandes gravadoras (as multinacionais da indústria fonográfica), essas companhias substituíram os antigos artistas pelo que havia de mais pedante e "comportado" da música brega, como Chitãozinho & Xororó, Alexandre Pires, Harmonia do Samba, Zezé Di Camargo & Luciano, Chiclete Com Banana, Exaltasamba, Revelação, DJ Marlboro, Latino, Banda Calypso e similares. Para os míopes ezecutivos da indústria do disco no Brasil, esses bregas são "a nova MPB". Visão compartilhada por muitos radialistas que não sabem a diferença entre gado bovino e público-alvo.

Há até pouco tempo atrás - leia-se meados dos anos 90 - as rádios de brega-popularesco eram muitas e crescentes, mas a MPB ainda era tocada entre dois sucessos bregas e um internacional. A pessoa já se enfurecia, é verdade, com a execução maciça de Chitãozinho & Xororó, É O Tchan e outras porcarias, mas entre uma e outra dava para ouvir um Djavan e João Bosco (o verdadeiro, parceiro de Aldir Blanc) na programação.

Mas hoje a situação é tão terrível que, pasmem, um dos mais populares COMPOSITORES do país, Caetano Veloso, é popularmente conhecido apenas pelas regravações que ele fez de esquecidas músicas dos cantores bregas Peninha e Fernando Mendes. Só isso faz a gente perceber o quanto está o nível de burrice graças à mídia gorda.

Enquanto os "líderes de opinião", em seus blogs ultra-badalados, inaugurados até com coquetel para convidados vip, minimizam os efeitos da farra de concessões de rádio de José Sarney e Antônio Carlos Magalhães, há mais de 20 anos, a realidade mostra que a coisa é mais séria.

Esses "líderes da opinião" (que oficialmente representam a visão dominante na opinião pública do país) afirmam que as concessões se limitaram a FMs regionais controladas por deputados de "fundo de quintal" e que o problema hoje está resolvido, com a "debandada" de muitos políticos do controle das rádios. Mas, na verdade, essas FMs passaram a ser controladas por "laranjas", por políticos retirados da vida partidária (como Mário Kertèsz, na Rádio Metrópole de Salvador) ou por franquias de redes via-satélite, que promovem a aliança de grupos oligárquicos regionais com as grandes redes da mídia gorda / gordinha.

Só essa farra de concessões, que não se limitou a presentear políticos, mas também empresários "independentes e idôneos", é a principal responsável pelo crescimento da Música de Cabresto Brasileira em detrimento da MPB autêntica que periga desaparecer da mídia no país.

Um comentário:

Marcelo Delfino disse...

Como seguro morreu de velho, não confio nem na permanência no ar da MPB FM. Daqui a pouco, a MPB ficará restrita às rádios MEC AM e Nacional AM. Por via das dúvidas, já estou catando nas lojas um CD da Elis Regina que as rádios tocavam direto até uns três anos atrás, e que anda difícil de encontrar até nas banquinhas de R$ 9,90 das Lojas Americanas.