sexta-feira, 26 de junho de 2009

MICHAEL JACKSON



Há muito tempo não curtia Michael Jackson. Só curti as músicas dele na infância, cheguei a ter o Thriller em K7 em 1983, mas depois enjoei do cantor, logo começou a adolescência. Me distanciei do pop, do hit-parade, na medida em que eu crescia, e descobri o rock inglês, o rock alternativo e outras tendências mais sofisticadas ou arrojadas.

Mas não deixa de ser chocante e até inacreditável saber que o aclamado rei do pop, um dos cantores mais populares do mundo e referência para muitos jovens de hoje, faleceu ontem à noite.

A tragédia, no entanto, era esperada. Michael Jackson, que surgiu como um cantor mirim de grande talento, considerado sangue novo para a música soul - ritmo que, de forma ingrata, anda perdendo seus intérpretes um a um com muita rapidez - , personificou, no entanto, a ilusão da riqueza e do desejo de se embranquecer.

Michael tinha até boa aparência como negro. Mas, ele preferiu embranquecer sua pele e manter sua "eterna juventude" através de remédios. Vale comentar que perseguir a "eterna juventude", aos 50 anos, é tão triste e deprimente quanto perseguir, nos mesmos 50 anos, a "velhice antecipada", como fazem profissionais liberais e empresários de cerca de 55 anos que, mesmo se casando com mulheres 15 ou 20 anos mais novas, se isolam, eles, num ideal de "velhice" que envolve festas de gala, uso excessivo de paletós e sapatos de verniz e gosto musical limitado a canções orquestradas e baladas de preferência dos anos 40 e 50. O drama de Michael Jackson foi um. O de Roberto Justus, Almir Ghiarone e companhia, outro. Mas são dramas igualmente lamentáveis.

Michael também cometeu o erro de perseguir o rock. Ele nunca foi roqueiro. Foi um soulman, de encher de orgulho aqueles que conheceram James Brown, Wilson Pickett, Otis Redding e Marvin Gaye, para citar os veteranos que hoje tem Michael junto a eles.

Foi a imprensa norte-americana que inventou essa ninharia de que Michael Jackson era roqueiro. Não vou aqui julgar o mérito de Michael ter gravado "Beat it" com Eddie Van Halen, mas o rótulo iludiu o cantor, que pela sua obsessão em ser o que não é tentou se vestir como Elvis Presley em fim de carreira e, depois, a andar no palco como Mick Jagger.

Aqui vale citar que Luiz Antônio Mello em A Onda Maldita, fez um capítulo intitulado "Aqui você não ouve Michael Jackson", referente à programação da Rádio Fluminense FM, uma rádio de rock. Aliás, para isso, havia outras rádios, como a Rádio Cidade FM, emissora carioca que, para o bem e para o mal, era uma rádio de pop, e Michael Jackson, não o Iron Maiden, era o símbolo maior dos 102,9 mhz cariocas. Noutra passagem do livro, LAM afirmou que nem gravando cover de Led Zeppelin Michael Jackson seria admitido na programação da Flu FM, porque se tratava de Michael Jackson, cantor de soul, de funk autêntico, espécie de padrinho do pop dançante contemporâneo.

Michael Jackson teve sua melhor fase na carreira entre o começo do Jackson Five - banda que o lançou que, acrescida de outro irmão e contratada por outra gravadora (saíram da Motown para irem à Epic Records, gravadora que teve MJ até o fim da vida), virou The Jacksons (um bom nome de funk autêntico, pouco lembrado pelo público) - e o Thriller. Mas Bad, de 1987, ainda pode ser considerado um título a ser prezado pelo pessoal do hip hop, ainda que não seja um álbum muito inspirado do cantor. Aliás, os modernos ídolos pop, como Beyoncé, Britney Spears, Justin Timberlake, Rihanna, entre outros, praticamente ouviram Bad na infância, e o disco foi referência até aos chamados boys bands (bandos de garotos, e não "bandas"), como Backstreet Boys e o próprio N'Sync que lançou Timberlake.

Michael foi um entertainer, acima de tudo. Nos últimos anos, quem esperava sofisticação musical no rei do pop estava perdendo tempo. Da mesma forma que ninguém espera que IS, uma célebre cantora brasileira explicitamente influenciada pelo cantor norte-americano, seria de fato uma artista de MPB autêntica.

Numa época em que os mais jovens - digo aqueles que nasceram de 1978 para cá - não entendem a diferença entre música comercial e não-comercial, entre entretenimento e cultura, falar que fulano é comercial e fulano não é comercial gera problemas. Sobretudo para esses pseudo-esquerdistas que vestem camisetas com foto de Che Guevara e se associam a comunidades socialistas no Orkut, mas que defendem explicitamente valores neo-liberais, tanto quanto os imperialistas que dizem odiar.

Mas a verdade é que Michael simbolizou esse pop comercial, esse hit-parade cujo ciclo parece se fechar, na medida em que nomes como Demi Lovato, Jonas Brothers e Taylor Swift oferecem informação musical e melodiosa que nem os "endeusados" posers e nem pós-grunges como Nine Inch Nails e White Zombie conseguem oferecer. Na medida em que nomes como Beyoncé, Britney Spears e até Black Eyed Peas passam a fazer um pop dançante chato, mais preocupado com batidas, efeitos de vocoder, sampler, jogadas de rap etc., jovens cantores surgidos há pelo menos dois anos voltam a procurar melodias através de instrumentos eletrônicos mais simples ou acústicos. Não é preciso detalhar, por exemplo, o fenômeno Aimée Duffy, pois a cantora inglesa foi fazer soul inglês à moda dos anos 60, com direito a seção de cordas, o que soa estranho para um público como o jovem brasileiro, acostumado com samplers e sintetizadores de última geração.

Michael também simbolizou a ilusão da fama. Negro, preferiu se embranquecer. Se valeu da riqueza para tomar remédios para embranquecer a pele e retardar a velhice. Viveu recluso. Parecia gostar de meninos, e talvez sentir desejo sexual por eles. Tentou se casar duas vezes com mulheres mas terminou sozinho. Sua pele ficou mais frágil, a ponto dele não poder mais se expor ao sol (sempre usava uma sombrinha). Seu organismo ficou mais frágil, por causa dos remédios. Talvez ele tenha tomado remédios para emagrecer, também, para evitar a ameaça comum dos cinquentões ficarem barrigudos.

Mas, querendo ser branco, deixou de ter a pele forte de negro que tinha. E, querendo ser jovem, envelheceu seu organismo, a ponto de sucumbir à tragédia que se consumou ontem. Foi um choque, ver que um garoto promissor que, a despeito de todo drama familiar, renovaria a soul music, terminar como terminou, somando mais um drama entre tantos outros envolvendo celebridades.

O DESENHO ANIMADO COM O JACKSON FIVE



Uma das coisas bacanas envolvendo Michael Jackson que eu vi foi o desenho que a Vídeocraft, produtora famosa por desenhos como Tales of Wizard of OZ, Cachorro Vira-Lata, Rocky & Bullwinkle e pela animação de bonecos Thunderbirds (todos da década de 60), fez a partir do fenômeno Jackson Five.

A série foi produzida em 1973, se chamava apenas The Jackson Five e transmitida no Brasil várias vezes. Eu vi a série em 1983, e eram histórias fictícias e cômicas com os cinco irmãos Jackson, e em dado momento era tocada uma canção do grupo, com um clipe próprio no desenho animado. Foi uma série divertida, que vale a pena ver.

A ÚLTIMA PIADA DO CASSETA SOBRE MICHAEL JACKSON

A obsessão de Michael Jackson por se tornar branco, sua personalidade reclusa e suas polêmicas não deixaram de render piadas, como todo acontecimento estranho. As plásticas fizeram Michael ter um visual andrógino. No Casseta & Planeta, isso não era exceção e Michael não ficou imune de ser parodiado pelo comediante Hélio de La Peña que, apesar de negro, teve que usar pó-de-arroz para fazer o papel do rei do pop.

Mas a última piada do Casseta quando Michael era vivo não teve essa paródia - Hélio estava ocupado com outros personagens - foi feita há algumas semanas, quando, entre a lista de celebridades femininas, quase todas mulheres, que o personagem Guerreiro, O Bombeiro (interpretado por Marcelo Madureira), "pegou", estava Michael Jackson. Foi feita uma foto montagem com o "bombeiro-garanhão" posando ao lado do cantor, junto a outras foto-montagens com Guerreiro e outras famosas.

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