quinta-feira, 25 de junho de 2009

CRISE DO RADIALISMO ROCK - III


Sabemos que, no início da década de 90, o radialismo rock passou por um sério período de diluição. Rádios que tocavam pop ou brega aderiram ao segmento rock sem se adequarem completamente ao gênero, contratando, quando muito, apenas uns três produtores especializados em rock. Muitas vezes, a figura do programador não passava de um reprodutor de playlists produzidos pela indústria fonográfica.

Por outro lado, as rádios originais de rock tiveram que encarar não só essa realidade como também a do surgimento da MTV. A MTV é uma boa emissora de TV, mas o mercado radiofônico, tanto nos EUA quanto no Brasil, superestimou a atuação da Music Television no rock - na verdade, é uma emissora eclética de pop - e nos dois países a classificação errônea da emissora televisiva como "rede do rock" derrubou praticamente o radialismo rock. Nos EUA, isso ocorreu logo nos anos 80, e a maior queixa dos críticos de lá era que as rádios deixavam de ter amor à música, e coisas tolas como o poser metal passaram a ser prioridades no cardápio musical dessas rádios.

As rádios originais de rock eram quatro: Fluminense FM, de Niterói (RJ), 97 FM, de Santo André (SP), Estação Primeira, de Curitiba (PR) e Ipanema FM, de Porto Alegre (RS). Eram rádios que surpreendiam pela locução sóbria e inteligente, pelo repertório abrangente que não repetia as músicas, não se limitava aos hits e "músicas de trabalho" e tocava até fitas demo caseiras, canções longas, bandas obscuras e música instrumental, tudo até na programação normal. E os locutores não costumavam falar em cima das músicas.

Mas, nos anos 90, as quatro rádios, para sobreviver, começaram a embarcar no modismo grunge e na ênfase exagerada no funk metal de Faith No More ou no poser metal podado do Guns N'Roses. Mesmo as bandas alternativas não saíram do feijão com arroz do noise, já de bandas que vieram depois da safra do Sonic Youth e Pixies. As quatro rádios não conseguiram acompanhar a verdadeira revolução do rock, das bandas inglesas tipo Ride, LA's e House Of Love, que a crítica embriagada pelo grunge classificou erroneamente como clones de Stone Roses & companhia.

Alguns programas passaram a ser feitos por locutores tresloucados, algo como o padrão do locutor pop alterado pela paranóia. Em outras palavras, é como se um locutor da Transamérica sofresse os efeitos da cocaína.

A Flu FM tornou-se um dos símbolos dessa crise das rádios originais de rock. Luiz Antônio Mello escreveu, no seu livro A Onda Maldita, na edição reescrita de 1999, que a Fluminense FM foi estuprada "moral, intelectual, ideologicamente". A indignação de LAM em ver como a rádio virou no início dos anos 90 era evidente, como todo trabalho que, inicialmente bem-feito, foi desvirtuado pelos sucessores.

Um dos motivos da decadência das rádios de rock originais é que quase todas as emissoras do gênero - houve também outras seguidoras - não eram ligadas a grupos empresariais fortes (a Ipanema era exceção, da filial gaúcha do Grupo Bandeirantes de Comunicação) e, por isso, sofriam sérios problemas financeiros.

Em contrapartida, as diluidoras do perfil rock tinham situação financeira saudável, a partir da própria 89 FM de São Paulo, a primeira a diluir o perfil rock, já empregando, no final dos anos 80, imitações baratas do Fernando Mansur que pareciam fazer locução para empregadas domésticas mas anunciavam nomes como Killing Joke e Violeta de Outono, praticamente arranhando com os ouvidos dos roqueiros exigentes.

Dizem rumores que a 89 FM foi favorecida politicamente no governo Fernando Collor. Era protegida, sem dúvida alguma, pela Editora Abril e pela Folha de São Paulo, e havia um esforço da crítica em evitar que fossem publicadas muitas críticas negativas à emissora. Afinal, as poucas críticas que se publicava contra a 89 FM (que já começou a desprezar o rock das Baratos Afins logo em 1987) repercutiam mal na emissora, que no entanto passou a assumir uma postura intransigente e arrogante, como se quisesse ser "rádio rock na marra", mesmo com seus sérios pecados.

A 89 FM lançou uma campanha de muito mau gosto, intitulada "Ouça a 89 FM ou morra", em 1993. Depois promoveu o locutor Fábio Massari - também VJ da MTV - em coordenador da emissora, com a missão de transformá-la num arremedo de college radio à maneira do modismo grunge. Embora até eu tenha ficado indignado com a figura de Massari, depois eu reconheci que o maior problema dele foi estar na rádio errada e ao lado de colegas errados (como Tatola, do grupo Não Religião, que hoje soaria como uma espécie de proto-emo, tal qual os Stooges são considerados proto-punks, e Carlos Eduardo Miranda, espécie de antecessor cult do Rick Bonadio). Se Massari estivesse, à essa época, na 97 Rock, junto a Leopoldo Rey, Kid Vinil, Valdir Montanari, a história do radialismo rock seria completamente outra.

A fase 1993-1994 da 89 FM não deu certo, e a rádio mudou de coordenador, passando a adotar um perfil que misturasse claramente a linguagem da Jovem Pan 2 com o repertório roqueiro do padrão MTV, da mesma forma que a 89 FM de 1987-1993 misturava o mesmo padrão de repertório com a linguagem da Rádio Cidade carioca de 1977.

Por uma coincidência completamente estranha, assim que a 89 FM assumiu seu fracasso como "rádio alternativa" (o que irritou profundamente os locutores da emissora), as rádios originais de rock foram extintas uma a uma. Dizem rumores que alguém da 89 entrou em contato com emissoras paulistas como Jovem Pan Sat e CBN e indicou rádios como a Fluminense FM e a Estação Primeira para serem arrendadas.

Até meados de 1995, a situação do radialismo rock só piorou de vez, quando duas rádios comerciais passaram a ser, à força da imposição empresarial, os paradigmas "oficiais" do radialismo rock, tornando o segmento roqueiro escravo do hit-parade e dos locutores engraçadinhos. A cultura rock no rádio, no entanto, ao invés de dar seu canto de cisne para bater as botas aos poucos, preferiu dar seu berro de urubu.

Um comentário:

Marcelo Delfino disse...

Amigo Alexandre, o programa que você citou, "Jack Ruim", nunca foi da Fluminense FM. Foi transmitido apenas pela Costa Verde FM 91,7 de Itaguaí, entre o final de 1994 e 1995. Foi extinto pela pressão da sociedade conservadora de Itaguaí e da Zona Oeste carioca.

Mas reconheçamos que o "Jack Ruim" era ruim, mesmo. E olha que era feito pela equipe do antigo Circo Voador...