segunda-feira, 18 de maio de 2009

PASSEATA DOS ENCALHADOS


Uma comunidade do Orkut organizou, recentemente, uma passeata para o Rio de Janeiro e São Paulo, com um tema hoje insólito: os manifestantes protestam contra carência na vida amorosa.

Certamente a vida amorosa brasileira vive uma realidade dramática. O Brasil é um país dos desencontros amorosos, onde os casais errados se juntam. O triplo conflito entre a tradição machista e os padrões das classes dominantes, a emancipação feminina e os valores populistas de direita lançados pela Música de Cabresto Brasileira, geram verdadeiras aberrações conjugais, onde a afinidade pessoal, que é o mais importante, todavia quase nunca é levado em conta.

Num passado recente, aliás, milhares de mulheres perderam a vida por causa da escolha de maridos errados, na base do pragmático-maquiavélico tripé força, dinheiro e convenções sociais. Ou seja, elas preferiram escolher homens que eram muito cuidadosos nos gestos comportamentais em um jantar de velas, mas que não tinham equilíbrio psicológico suficiente para suportar um fim de noivado ou casamento. Acabaram levando tigre por lebre. De 1977 até agora, a fúria machista levou a melhor até nos tribunais, mas esses machistas mal desconhecem que outros homens também se irritam com a fúria dos primeiros. Se para um machista, todo homem é amigo, essa tese não passa de uma tola fantasia.

Mas, fora do âmbito violento, também ocorrem os desencontros. Empresários sisudos que se casam com jornalistas ou ex-modelos de personalidade brilhante. Cinquentões ou idosos sem a menor disposição para a jovialidade que se casam com mulheres bem mais jovens que eles. Mulheres provincianas que sonham com o Fábio Jr. mas se recusam a namorar os sósias dele que por ela se apaixonam, preferindo os excêntricos nerds que elas conheceram no Orkut (e que certamente não as querem para namoro). Funkeiras e pagodeiras que rejeitam funkeiros e pagodeiros por causa de divergências tolas, mas que assediam universitários com divergências bem mais sérias e inconciliáveis.

Até pouco tempo atrás, a mídia gorda tentava dar a impressão de que bares e boates eram os únicos lugares para paqueras. Só que essa campanha, além de esconder o lobby dos empresários de bares e boates com a mídia, também teve como consequência negativa a violência conjugal movida pelo álcool, mas não apenas a violência conjugal, mas a geral. Só de 2003 para cá, inúmeros casos de violência e morte nos bares e boates, além de brigas com feridos, ocorreram, causando aflição em famílias que não raro perdiam seus entes queridos em incidentes assim. E, convenhamos, é raro alguém ir para as noitadas sem tomar alguma dose de álcool.

Com isso, nos últimos três anos, a mídia mudou seu discurso. Os bares e boates foram trocados por restaurantes. Já não se trata mais de enfatizar qualquer pessoa procurando qualquer pessoa para namorar, mas colegas de trabalho ou faculdade em azaração com outros colegas do mesmo ambiente. Há também as paqueras em academias de ginásticas e escolas de dança, que tomaram o lugar dos agitos noturnos movidos a bebedeira gratuita e drogas, sobretudo sintéticas. Não é o paraíso, ainda, mas é uma evolução significativa.

Agora temos a novidade das passeatas. Uma ocorreu no Rio de Janeiro, na última sexta-feira. Outra, ontem em São Paulo. Já é uma volta da prática das paqueras ao ar livre, depois de tantos anos condenada ao confinamento etílico de bares e boates. No entanto, os solteiros em questão ainda pecam em qualidade. Não preciso falar dos homens, porque muitos dos defeitos de certos machos são óbvios (sobretudo a "galinhagem", querer namorar só por curtição e às vezes cometer infidelidade). As mulheres, sim, precisam ser questionadas, sobretudo pela personalidade marcada por referenciais culturais rasteiros e uma submissão aos valores da grande mídia mais popularesca (Rede TV! e SBT, principalmente, mas a Rede Globo também).

Ter referenciais culturais rasteiros influi na personalidade, sim, do contrário que certos otimistas insistem em afirmar. Imagine eu, que nunca fui de referenciais cafonas e nunca tive interesse pela Música de Cabresto Brasileira, namorar uma fanática justamente desses referenciais.

O orkuteiro mais debilóide cairá em delírio, afinal frases lindas da demagogia brasileira chegam à tona, como "As diferenças se superarão", "O preconceito vai cair", "A magia do amor resolve tudo". Pimenta nos olhos dos outros é refresco, diz o ditado. Para o papel que o "sistema" determina às mulheres classudas, esse ditado seria adaptado para "Pimenta Neves na vida amorosa das outras é refresco".

Só que a falta de afinidade não corresponde à harmoniosa utopia exaltada pelos hipócritas, que, imitando na forma o discurso pacifista e humanitário de gente como Mahatma Gandhi, no conteúdo estão mais próximos do Amigo da Onça.

A falta de afinidade significa brigas, conflitos, divergências sérias, imposição de limites de ambas as partes do casal. Brigas conjugais nada têm a ver com as músicas que ícones da Música de Cabresto Brasileira, como Leandro & Leonardo, Calcinha Preta e outros, tanto cantam nas letras. Falta de afinidade gera complicações, mal-estar, e sabemos que ninguém é totalmente igual, mas há uma grande diferença entre as divergências que dão para um convívio harmonioso e outras que geram conflitos sérios.

Sei que surgirão rapazes com aquela retórica de faquir que dirão coisas do tipo "só curto jazz e Bossa Nova e namoro uma pagodeira numa boa", que certamente não convencerão e não farão regra alguma às relações amorosas. O grande mal dos anos 90 foi justamente isso:as exceções queriam ser regras, os penetras queriam ser os donos das festas, as elites minoritárias queriam ser a voz da maioria, de preferência absoluta, da humanidade.

Portanto, em que pesem casos excepcionais, a falta de afinidade conjugal é uma realidade que não pode ser menosprezada. No futuro, certamente vários casais "solidamente" reunidos pela conveniência sócio-econômica se dissolverão, enquanto solteironas bregas desistirão de esperar por nerds excêntricos e se casarão com aqueles mesmos sósias de Fábio Jr., Alexandre Pires, do "imperador" Adriano e do Zezé Di Camargo que elas haviam dado o fora na quermesse passada.

E aí as passeatas dos encalhados darão um salto diferenciado de qualidade.

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