domingo, 10 de maio de 2009

MÚSICA DE CABRESTO BRASILEIRA E A MÍDIA


Sabemos que o brega-popularesco, a Música de Cabresto Brasileira, não é a "verdadeira cultura popular" que muitos acreditam. E sabemos que, para que se promova um Alexandre Pires ou Zezé Di Camargo aqui, um DJ Marlboro ali, um Chiclete Com Banana acolá e uma Banda Calypso mais além, quantias astronômicas são investidas na mídia grande para manter esses ídolos de proveta sempre em alta. Vale tudo, afinal, pois não há conceito de ética, nem de estética, nem de coisa alguma. Os ídolos têm que fazer sucesso, ganhar dinheiro suficiente para que eles sejam tão ricos quanto os empresários que estão por trás deles.

Pois a mídia criou um discurso, há um bom tempo, querendo promovê-los até como se fossem "a nova MPB", idéia muito falsa mas que, como todo discurso demagogico, comove as massas ingênuas e desinformadas, já marginalizadas da Educação, da Cidadania e do Bem-Estar Social para caírem feito patos a tudo o que a mídia gorda determina como sendo a "vontade do povo".

Vieram então seus ideólogos: Hermano Vianna, Paulo César Araújo, o baiano Milton Moura... Vieram celebridades adotando sempre um ou dois ídolos cafonas como "mascotes". Veio o establishment de Caetano Veloso adular a cafonice dominante. E há quem diga que o establishment neo-brega de axézeiros, breganejos, pagodeiros, funkeiros etc. não é establishment e que os grandes ídolos da dita "música popular" ainda não fazem sucesso e sofrem discriminação. Vá dizer que Zezé Di Camargo & Luciano "não" fazem sucesso, com toda a mídia gorda aos pés da dupla.

Pois a mídia tem participação decisiva deste establishment brega-popularesco, completando o que latifundiários, empresários e políticos fazem para promover os ídolos bregas e neo-bregas. Vejamos alguns exemplos do que a mídia grande, a mídia de direita, faz para promover os ídolos popularescos:

ORGANIZAÇÕES GLOBO - A Rede Globo apoia todas as tendências neo-bregas. Foi responsável por toda uma recauchutagem visual dos breganejos que exibiam sua cafonice explícita no SBT e na Rede Record, nos anos 80. Também fez o mesmo com o sambrega e é o principal carro-chefe de toda a falácia que envolve o "funk carioca". Também transformou a axé-music num ritmo nacional e até com sérias intenções imperialistas. Toda a programação conta com um pouco da apologia ao brega e ao neo-brega, e conta com os demais veículos das Organizações Globo. Quem pensa que a máquina "global" parou com a morte de Roberto Marinho, é bom se atentar para essa armadilha brega-popularesca da Vênus Platinada.

FOLHA DE SÃO PAULO - O mesmo jornal que chamou a ditadura militar brasileira de "ditabranda" também esnobou a preocupação de intelectuais sérios com a decadência em qualidade da música brasileira. Pioneira do marketing da exclusão, a Folha foi pioneira em criar um discurso "favorável" para a música brega, mas como esse discurso foi feito quando a Folha não tinha alcançado a fama de reacionária dos últimos anos, o pessoal acreditou nesse discurso, pensando que ele era "transparente" e "democrático".

EDITORA ABRIL - A editora da família Civita costuma cortejar a axé-music, e a revista Contigo tem um camarote próprio no Carnaval da Bahia. A Contigo vive de braços abertos para o brega-popularesco, mas aparentemente Veja só corteja a axé-music. Mas Veja tem uma atitude ambígua com o brega-popularesco: aparentemente o rejeita*, mas reconhece seu "sucesso". Há uma simpatia maior com os ídolos da axé-music e os cantores religiosos (como Aline Barros, Padre Marcelo Rossi, Padre Fábio de Melo e Régis Danese).

SBT - O SBT não inventou a "cultura" brega, que vem sendo concebida pelas emissoras AM controladas por latifundiários e, na televisão, moldada nos anos 70 pelas redes Record e Bandeirantes. Mas o SBT foi responsável, em parte, pela construção da hegemonia dos bregas e neo-bregas no Brasil. Esse poder massificante foi complementado depois pela Rede Globo, que deu um tratamento kitsch** aos neo-bregas (axé-music, breganejo, "funk", oxente-music, sambrega, pagodão etc.).

RÁDIOS POPULARESCAS - A princípio, foram as AMs do interior do país controladas por fazendeiros ou políticos direitistas (sobretudo UDN). Depois, vieram as FMs que apoiaram a ditadura militar ou que foram batizadas por Antônio Carlos Magalhães quando este era Ministro das Comunicações do governo José Sarney. Essas rádios, de perfil "popular", na verdade se enquadram em projetos populistas das oligarquias conservadoras, que querem manter seus ricos privilégios às custas da imbecilização popular. Elas é que fizeram com que o brega-popularesco, no seu todo, pegasse em todo o Brasil.

* A Veja, sendo uma mídia de direita reacionária, expressa os interesses da burguesia conservadora. Ela, em si, odeia o brega-popularesco, porque ela não quer apreciar a mediocridade musical, ela é investida mais para imbecilizar o povo pobre e a classe média baixa.

** A expressão kitsch não está no sentido popularmente conhecido, o do grotesco propriamente dito, mas sim na abordagem dada por Umberto Eco, no livro Apocalípticos e Integrados, lançado há 40 anos.

Um comentário:

Lucas Rocha disse...

Caro Alexandre Figueiredo,
Para que todos nós, 191.112.504 brasileiros (estimativa de maio de 2009, segundo o IBGE), digamos "não" a todo o império musical brega-popularesco, todas as baixarias televisivas, todo o comércio cinematográfico da Globo/Conspiração Filmes, todas as distorções gramaticais (por exemplo, qualquer coletivo virou "galera" e qualquer festa virou "balada"), todo o analfabetismo funcional da geração pós-1978 (que vivem numa "Terra do Nunca" neoliberal, pensando que esses direitistas neoipesibadianos serão adolescentes até depois dos cem anos de idade, e não conseguem diferenciar as coisas direito), com todas as suas personalidades terrorísticas, e a todo o esquema MENSALLEIRO da corrupção política, vou te mandar a letra da música "Cálice", que Chico Buarque gravou no tempo da ditadura, digo, PICA DURONA MILITAR (1964-1985):

CÁLICE - CHICO BUARQUE:

Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue...(2x)
Como beber
Dessa bebida amarga
Tragar a dor
Engolir a labuta
Mesmo calada a boca
Resta o peito
Silêncio na cidade
Não se escuta
De que me vale
Ser filho da santa
Melhor seria
Ser filho da outra
Outra realidade
Menos morta
Tanta mentira
Tanta força bruta
Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue
Como é difícil
Acordar calado
Se na calada da noite
Eu me dano
Quero lançar
Um grito desumano
Que é uma maneira
De ser escutado
Esse silêncio todo
Me atordoa
Atordoado
Eu permaneço atento
Na arquibancada
Pra a qualquer momento
Ver emergir
O monstro da lagoa
Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue
De muito gorda
A porca já não anda
(Cálice!)
De muito usada
A faca já não corta
Como é difícil
Pai, abrir a porta
(Cálice!)
Essa palavra
Presa na garganta
Esse pileque
Homérico no mundo
De que adianta
Ter boa vontade
Mesmo calado o peito
Resta a cuca
Dos bêbados
Do centro da cidade
Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue
Talvez o mundo
Não seja pequeno
(Cálice!)
Nem seja a vida
Um fato consumado
(Cálice!)
Quero inventar
O meu próprio pecado
(Cálice!)
Quero morrer
Do meu próprio veneno
(Pai! Cálice!)
Quero perder de vez
Tua cabeça
(Cálice!)
Minha cabeça
Perder teu juízo
(Cálice!)
Quero cheirar fumaça
De óleo diesel
(Cálice!)
Me embriagar
Até que alguém me esqueça
(Cálice!)

Alexandre,
Por favor, depois, me responda comparando a letra dessa música (censurada durante cinco anos pelo leão feroz do AI-5) com todos os citados absurdos neofebeapáticos do Brasil atual!