quarta-feira, 27 de maio de 2009

A INGENUIDADE DE ÁLVARO PEREIRA JR.


O colunista do caderno Folhateen, da Folha de São Paulo, e também repórter e editor do programa Fantástico, da Rede Globo de Televisão, Álvaro Pereira Jr., foi dado a criar muita polêmica na coluna do citado caderno teen, chamada "Escuta Aqui".

Pois Álvaro foi dado a cometer, em 1995, uma das mais constrangedoras e risíveis manifestações de ingenuidade, engrossando a lista dos casos ingênuos que assolam o país e que mostram que o permanente FEBEAPÁ, que sobreviveu à morte do Sérgio Porto, continua com toda a força.

Álvaro, sabe-se, criticou muito o cantor Caetano Veloso, falando da existência de um establishment caetânico cujas caraterísticas Ricardo Alexandre (na época jornalista de O Estado de São Paulo e cuja carreira também se associou à Bizz) escreveu no livro Dias de Luta e Cláudio Júlio Tognolli, outro jornalista, apelidou de "máfia do dendê".

Segundo esses jornalistas, a MPB sucumbiu à mesmice que transformou seu antes impactuante cenário dos anos 60/70, no decorrer dos tempos, em um movimento acomodado artisticamente e dotado de um clima de compadrismos que mistura Academia Brasileira de Letras com colunismo social. E essa mesmice, segundo eles, se deu sobretudo com a supermacia de Caetano Veloso no cenário da MPB.

Só que Álvaro Pereira Jr. investiu numa tese absurda, delirante e completamente fora da realidade: a de que a axé-music não tem a menor relação com o establishment caetânico. Segundo Álvaro, a axé-music era dotada de "despretensiosismo musical" em detrimento ao pretensiosismo que, para ele, eram simbolizados por Caetano Veloso e os Titãs, suas vítimas prediletas.

Álvaro chegou a tal ponto que chegou a atribuir, erroneamente, o movimento mangue beat de Recife (Pernambuco) como um sub-produto do establishment caetânico, enquanto a milionária axé-music, que é o verdadeiro sub-produto, ele não reconhecia nesta condição. Como Chico Science, nos seus últimos meses de vida, deve ter refletido muito sobre os ataques que recebia do badalado jornalista da Folha / Rede Globo...

Aparentemente, Álvaro, famoso também por conhecer bandas de rock obscuras - que, para a gente aqui, nem sempre são necessariamente boas - , apoiava abertamente o medonho grupo baiano É O Tchan, incluído na lista da "música despretensiosa" que só ele acreditava dessa forma.

Só que TODA a axé-music era apadrinhada pelo establishment caetânico com gosto, e de forma muito mais do que explícita. Pior: a axé-music surgiu APADRINHADA por Antônio Carlos Magalhães, político direitista que dominou a Bahia mas que conta com seus herdeiros e seguidores (alguns enrustidos) no poder político e midiático do Estado. E Caetano e companhia apoiaram ACM quando lhes convinha apoiar.

O É O Tchan, armação de fazer o Milli Vanilli parecer, ao menos, uma divertida comédia de ficção, está incluído no establishment caetânico a ponto de ser jogado, através de um mecanismo jabazeiro, num documentário sobre folclore brasileiro narrado pelo cúmplice de Caetano, o cantor e ex-ministro Gilberto Gil.

Álvaro Pereira Jr. não botou o É O Tchan no "Play" de sua avaliação semanal - ele colocava "Play" para coisas que ele aprovava, "Pause" para coisas que ele não odiava mas tinha algum pé atrás e "Eject" para coisas que ele reprovava - , porque aí seria baixar as calças e mostrar os glúetos (especialidade do grupo liderado pelo empresário Cal Adan) em praça pública. Se pondo Spice Girls e Sandy & Júnior deve ter gerado "pedradas", imagine o que seria com o É O Tchan. Até os colegas do Fantástico fariam piada: "Pô, Álvaro, você exagerou demais. Um cara como você, que ouve até Joy Division, curtindo 'bunda-music'?".

Álvaro também apoiava o sambrega. Elogiava grupos como Katinguelê, Negritude Jr., Karametade e Exaltasamba (que na época fazia um som muito mais tosco que o samba falsificado de hoje - eles têm o mesmo empresário do Grupo Revelação, que segue essa linha do "sambrega para turistas ingleses e técnicos do ISO 9000 verem").

Só que um integrante dos Titãs, grupo atacado por Álvaro, também gostava desses grupos. Foi justamente o guitarrista Marcelo Fromer, que, nos seus últimos meses de vida, havia lançado um livro sobre culinária e queria presentear esse livro para o Álvaro, talvez grato pelo gosto musical comum. Quem te viu, quem te vê.

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