domingo, 3 de maio de 2009

"DESCOLADOS" - ALTERNATIVOS 'FAKE'?


Um tipo de pessoas, sobretudo jovens, que surgiu na nossa Era da supradose informativa e que merece uma análise e discussão é o dos chamados "descolados".

Situados entre o establishment do entretenimento e os referenciais manjados da cultura de vanguarda, esses jovens, tidos como uma "versão pop" dos jovens alternativos ou vanguardistas dos anos 80 para trás, são esforçados mas encontram limitações no desenvolvimento de seus referenciais culturais.

Geralmente nascidos no final dos anos 70, esses jovens, durante a tenra infância e a adolescência, se limitavam ao irrit-pareide da "mídia gorda", com direito a tudo que for de gosto duvidoso, que muitos curtiram sem notar a maioridade passar.

Mas um dia eles vão para a Universidade e encontram outros tipos de pessoas, ligadas à cultura de vanguarda, que lêem livros estranhos e falam de autores que esses jovens antes nunca haviam sequer ouvido falar, nomes que variam entre Noam Chomsky, Franz Kafka, Mário Quintana, Tom Zé, Andy Wahrol, Hannah Arendt, Mário de Andrade, Camile Paglia, Jorge Mautner.

Acomodados com Xuxa e Gugu Liberato, com Michael Jackson e New Kids On The Block, com Dr. Slvana & Cia., Menudo, Technotronic, Wando, Guns N'Roses e outras guloseimas, os jovens ficam transtornados, mas para não fazer feio na faculdade tentam mudar a orientação cultural para não fazer feio entre os veteranos, até porque estão em alto risco de não ingressar nas faculdades sem antes levar farinha de trigo e até ovo na cabeça (para não dizer o corpo inteiro, sujando a roupa toda), como ocorrem nos trotes sobre calouros universitários.

Então, para que o vexame se encerre nos trotes, esses jovens começam a conhecer outras coisas. No começo é difícil, afinal o que é de gosto duvidoso, para eles, é mais gostoso, mas terão que levar adiante seus esforços.

Afinal, o que lhes espera é a maratona de xerox de obras de autores considerados difíceis, os bate-papos com colegas veteranos em bares que tocam jazz dos anos 50 (musicalmente mais complexo), ir a eventos teatrais mais conceituados, juntar referenciais mais intelectualizados para não fazer feio nas conversas.

Os descolados têm esse caminho difícil, porque, do final dos anos 80 para cá, a mídia gorda passou a despejar um monte de ídolos, referências e valores e gosto bastante duvidoso, com uma frequência que faz os incautos se acostumarem rapidinho. Por isso os "alternativos de primeira viagem", como são os "descolados", encontram problemas para se tornarem um público alternativo de verdade.

Por isso mesmo eles se confundem na busca de referências culturais. Não ousam muito na garimpagem de artistas e ideias mais originais ou próximos disso. Correm atrás de veículos fáceis da mídia, como a revista Bravo, da Editora Abril, ou o canal pago Multishow, da Globosat, mas se sentem tentados até a ler os portais de celebridades, as rádios pop da adolescência, e aí é que entram os equívocos.

Assim, a mídia gorda os trata como verdadeiras presas, empurrando como suposta vanguarda até o ultra-cafona "funk carioca" e mesmo os filmes de Stallone. Confundindo badalação com vanguardismo, esses jovens, no seu caminho de pedras cultural, começam misturando alhos com bugalhos, totalmente desorientados de uma mídia alternativa de verdade. Não temos mais Fluminense FM, as rádios de MPB são poucas, as TVs educativas às vezes se corrompem (o Sem Censura da TVE com É O Tchan e o Vitrine da TV Cultura com Zezé Di Camargo & Luciano são exemplos) e as revistas mais vulgares querem sempre dar uma de "bacaninha", como se quisessem trocar as barbearias (reduto de leitura dessas revistas) pelas bibliotecas universitárias.

Por isso é que esses jovens começaram falando gírias ridículas como "balada" (para "agito noturno"), comparecendo à Festa Ploc, misturando "funk carioca" com Velvet Underground, enquanto encontram dificuldades para ler Kafka, para estudar os autores da Escola de Frankfurt, para compreender a arte expressionista. Dormiram ouvindo Menudo e acordaram ouvindo Velvet Underground, por isso seu despertar é muito, muito difícil.

Se a mídia ajudasse, como em outros tempos...

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