domingo, 3 de maio de 2009

CRISE DO RADIALISMO ROCK - I


A crise do radialismo rock no Brasil se deu mais cedo do que as pessoas imaginam. Costuma-se dizer, oficialmente, que a crise das rádios de rock se deu a partir de 1995, quando as emissoras dedicadas ao estilo estavam indiferentes a tendências e grupos de rock que faziam sucesso no circuito alternativo ou mesmo no mainstream do Primeiro Mundo.

Mas a crise veio a partir de 1985. Enquanto a Rádio Fluminense FM, de Niterói (RJ), uma das pioneiras no segmento, vivia uma crise financeira que inviabilizava um projeto de rede nacional, rádios pop convencionais como Cidade e Transamérica passaram a tocar o mais manjado do rock nacional e do rock dos EUA e Reino Unido, além de praticamente comprar os principais profissionais da rádio. O oportunismo, que rendeu às duas rádios programas roqueiros corretos mas falhos (a locução em cima das músicas é uma dessas falhas), serviu para a criação da rádio 89 FM que, apesar de muito badalada pela mídia, pertenceu à segunda divisão das rádios dedicadas ao rock no país.

A 89 FM surgiu como uma "rádio alternativa" mais pop. Sua inspiração clara era a MTV e o radialismo rock norte-americano, que deixava de ser culturalmente abrangente para ser mais pragmático, dentro das facilidades do discurso pop. Além disso, a 89 FM era uma rádio de disco music, a Pool FM, e quando surgiu veio para aproveitar os louros do Rock In Rio I, evento que não era só de rock mas tinha o estilo como carro-chefe.

A 89 FM foi muito superestimada pela crítica paulista, porque apresentava um elemento inédito: era uma tentativa de fazer programação alternativa com suporte de rádio comercial. Apesar da rádio ter carregado cerca de 21 anos a "postura" rock, seu projeto original durou poucos anos, pois já em 1987 o projeto dito "anti-rádio" (na prática uma imitação, por locutores vindos da Rádio Cidade paulista, do que a Flu FM era em 1985) começava a perder o fôlego, rendendo até críticas de leitores na seção de cartaz da BIZZ.

A superestima se deu porque a 89 FM ficou famosa por tocar Frank Zappa, Violent Femmes, Violeta de Outono, Fellini e similares o tempo todo. Puro mito. No grosso, mesmo, a 89 FM tocava Lulu Santos, Eurythimics, Billy Idol e Oingo Boingo, a parte "alternativa" rolava geralmente de noite, horário em que os críticos musicais costumam ligar o rádio. Numa época sem Internet, o pessoal de todo o país vibrava quando o colunista da Folha de São Paulo ou O Globo falava que a 89 FM havia tocado "de bandeja" Killing Joke, Lou Reed, Lloyd Cole and The Commotions e Smack (banda de Edgard Scandurra, recém-retomada), sem dizer, é claro, se era programação normal ou algum programa noturno, pois o horário noturno permitia coisas "mais difíceis".

A 89 FM não era tão ousada quanto a Fluminense FM de 1985-1986. Era até menos. A Fluminense FM cometia erros, como tocar soft pop na programação (muitos reclamavam da inclusão de Sade, Simply Red e A-ha no playlist), mas mesmo assim, com toda a crise financeira, seus acertos continuavam prevalecendo. A Flu tinha coragem de tocar Weather Prophets na programação normal com frequência de um quase hit, mesmo sem promessa alguma da banda inglesa ser lançada no Brasil. A 89 FM, com muito menos frequência, só tocou Plasticland (grupo dos anos 80 inspirado nos Seeds) porque a RGE havia garantido lançar o grupo no Brasil.

Em 1987, a 89 FM não só deixava de tocar os discos da Baratos Afins - deixando vazar que exigia alguma taxa de divulgação dos discos - como colocava nos microfones locutores que eram imitações baratas dos locutores da Rádio Cidade carioca de 1977. Ficava estranho caras com aquela fala de pretensos gostosões anunciarem até Inocentes e Sonic Youth. Mas, enquanto a 89 FM declinava em qualidade, a rádio, pelas boas relações que seus donos (dois filhos do empresário José Camargo) com a grande mídia e a política.

Os irmãos Júnior e Neneto Camargo apoiaram Fernando Collor, e a Editora Abril e a Folha de São Paulo atuaram como protetoras da rádio, procurando minimizar os efeitos do descontentamento de muitos alternativos, desiludidos com os rumos da 89 FM. Como morta-viva, a rádio carregou durante muito tempo o rótulo "rock" e, entre seus erros, estava em ter uma equipe de produtores temperamentais, que se irritavam à menor crítica. Muita gente que ligava o telefone falando que a 89 não era mais "rádio rock" recebia uma resposta mal-educada de um produtor irritadiço, desses que confundem rebeldia com pavio curto.

Com isso, a fórmula de "rádio rock" que propagou pelo país não foi a fórmula original da Fluminense, restrita aos Estados do Sul e Sudeste, mas o da 89 FM já diluída em 1988, num formato esquizofrênico, que às vezes botava um nome pop camuflado no playlist.

Isso criou uma situação tragicômica, fazendo com que muitas rádios pop ou popularescas do resto do país mudassem a orientação musical sem fazer qualquer adaptação. Elas só colocavam dois ou três produtores ligados ao rock, lançavam alguns programas do estilo, mas entre muitas questões complicadas, como o longo contrato de locutores popularescos (ou mesmo a contratação de locutores novos com estilo de linguagem nada roqueiro) e a lógica hit-parade, incluindo falação em cima das músicas, determinou o fracasso das rádios ditas "roqueiras" sobretudo no Norte e no Nordeste.

Afinal, ficava uma coisa ridícula: locutores que haviam elogiado calorosamente cantores como Fábio Jr. e Wando, cinicamente passaram a fazer, pouco depois, falsas bajulações a nomes como Ramones, Legião Urbana e Iron Maiden. Pior: falando em cima das músicas, impedindo que elas sejam ouvidas até o final sem qualquer intervenção (isso quando as músicas não eram cortadas antes, o que não era raro). Ficava muito falso e hipócrita ouvir a instrumental final de "Smoke On The Water", do Deep Purple, e em cima dela o locutor fazendo onomatopéia do riff da canção e dizendo, metido, "Demais, não? Deep Purple na (tal emissora) FM!!".

Certamente o fracasso não foi da noite para o dia, não porque ele demorou a vir, mas porque as rádios pseudo-roqueiras eram perseverantes, demorando dois ou três anos a reconhecer os equívocos que cometeram. Na segunda parte, falaremos da fase 1991-1994 que derrubou muitas rádios dedicadas autêntica ou falsamente ao rock.

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