terça-feira, 7 de abril de 2009

A OUTRA "DITABRANDA" DA FOLHA DE SÃO PAULO



Ninguém percebeu, mas a Folha de São Paulo, no dia 28 de março de 2008, despejou comentário comparável ao da "ditabranda" que despejou no editorial de 17 de fevereiro de 2009. Para comparar, vamos colocar os dois comentários sobre as duas "ditabrandas" defendidas pelo periódico paulista cada vez mais reacionário:

"Mas, se as chamadas "ditabrandas" -caso do Brasil entre 1964 e 1985- partiam de uma ruptura institucional e depois preservavam ou instituíam formas controladas de disputa política e acesso à Justiça-, o novo autoritarismo latino-americano, inaugurado por Alberto Fujimori no Peru, faz o caminho inverso. O líder eleito mina as instituições e os controles democráticos por dentro, paulatinamente." ("Limites a Chavez". Editorial. Folha de São Paulo, 17 de fevereiro de 2009)
"Críticos anticarnaval, moralistas de plantão, guardiões da "qualidade" da música brasileira, horrorizai-vos: a axé music veio, mandou tirar os pés do chão e jogar as mãozinhas para o alto e venceu." ("Axé triunfa com artista 'fiel' e 'pegação'", de Marco Antônio Canônico. Folha de São Paulo, 28 de março de 2008)

Certamente os "líderes de opinião", cheios de (falsa) moral, irão perguntar para mim "E daí?". Felizes porque, para a chamada
"opinião pública" dominante, armadilhas da direita e da mídia gorda só existem no âmbito da política, no entretenimento funciona a lei do "peido na cara dos outros é perfume".

Pois as duas "diferentes" frases parecem escritas pela mesma pessoa, tal o nível agressivo e irônico, não fosse o autor Marco Antônio Canônico um repórter da sucursal baiana da Folha.

E por que ninguém percebeu a semelhança ideológica dos dois textos? Por que a axé-music teve um lobby tão fortíssimo que invadiu aparentemente os vários terrenos ideológicos, e os pseudo-esquerdistas, tão falados aqui neste blog, foram os que mais divulgavam a axé-music, só faltando vestir o cadáver de Che Guevara de abadá e bandana na cabeça, o que seria um ataque à figura manjada mas nem sempre devidamente compreendida que foi o guerrilheiro latino americano.

No texto da "ditabranda" propriamente dito, a Folha de São Paulo faz um ataque a Hugo Chavez, presidente venezuelano, controvertida figura de extrema-esquerda que tem lá seus erros, mas é cegamente trucidado pela mídia gorda e até pela mídia fofinha (atenção, "líderes de opinião"!!). No texto sobre a axé-music quem é atacado são pos intelectuais que reclamam pela música brasileira de qualidade e que são ridicularizados pelo establishment opinativo por serem supostamente "moralistas", porque não aceitam ver a MPB escravizada por um remexer de glúteos.

Em compensação, os dois textos também têm seus pólos de defesa. No texto "Limites a Chavez", a defesa está nos regimes neoliberais, a ponto de classificar a ditadura militar como "muito branda", daí o neologismo "ditabranda". No texto "Axé triunfa com artista 'fiel' e 'pegação'", a defesa vai para a axé-music, esse ritmo pretensioso, imperialista, concentrador de poder, musicalmente frouxo e de valores artístico e cultural duvidosos, mas que é tutelado pela mídia gorda como se fosse a "música-síntese da humanidade planetária" (alguém conta esta lorota para outro, que aqui não colou).

E, pasmem os leigos, vibrem os melhor informados, a axé-music e a ditadura militar possuem um elo de ligação, e isso não é tese conspiratória, é fato histórico devidamente documentado e comprovado. A ligação foi o falecido senador e ex-governador da Bahia ANTÔNIO CARLOS MAGALHÃES.



AXÉ-MUSIC SURGIU COMO PROJETO CARLISTA

Como governador da Bahia, ainda durante a ditadura militar, Antônio Carlos Magalhães promoveu um governo populista de direita, seja como forma de evitar as tensões sociais no Estado, seja para impor uma ideologia conservadora e conformista para o povo baiano. Para incrementar o projeto ideológico, Magalhães encomendou a publicitários, técnicos, tecnocratas, assessores e outros para desenvolverem um ideal estereotipado de baianidade que ao mesmo tempo transforme Salvador num "Caribe brasileiro" e crie um modelo de "sociedade baiana" a ser considerado "padrão".

Para isso, tinha que se mexer no turismo, se aliando à Rede Globo, que brindou o governador com a novela Gabriela, baseada na obra de Jorge Amado. E, nos bastidores, se começava a pensar em substituir aquele cenário de carnaval baiano que alternava blocos afro, então recém-surgidos, com bandas de trio que misturavam frevo, chorinho e rock e tinham até guitar heros, como Armando Macedo (Armandinho), filho de Osmar Macedo (um dos fundadores do primeiro trio elétrico, a fobica, lançado em 1950) e Pepeu Gomes.

A estereotipação, dotada de um visual supostamente "baiano" - na verdade uma mistura caótica de referenciais jamaicanos, havaianos, africanos, hippies e surfistas diluída com um apelo explicitamente brega - , diluía seu som para um padrão "digestível" que normalmente é um frevo caricato com elementos deturpados de reggae, rock e clichês tropicalistas, acrescidos de um marketing que foi claramente herdado da Jovem Guarda.

Essa diluição veio nos anos 80. Não precisamos dizer todos os nomes da axé-music (termo originalmente lançado, de forma pejorativa, pelo crítico musical baiano Hagamenon Brito, que escrevia também para a Bizz), mas a história é que muito do inicial sucesso da axé-music foi claramente motivado pelos financiamentos autorizados por Antônio Carlos Magalhães, e pelo apoio político que ele e seus aliados deram para os axezeiros. Isso fez com que os empresários de axé-music, donos de blocos e grupos musicais (sim, existe o fenômeno dos grupos "com donos", liderados não por seus vocalistas-fetiches, mas por seus empresários), se enriquecessem de forma assustadora, não bastasse eles cobrarem muito caro para os associados de blocos ingressarem no Carnaval. Além de tudo isso, a axé-music também virou símbolo da juventude rica de Salvador e de qualquer lugar onde houver uma micareta.

Só para entender melhor o crescimento da axé-music no Brasil, ele foi impulsionado pelos seguintes episódios:

- A influência política de Antônio Carlos Magalhães na distribuição de rádios FM para políticos e empresários simpatizantes, o que influiu anos depois na hegemonia do brega-popularesco em todo o território nacional, nele inclusa a axé-music.

- O aumento do poder político de ACM na Bahia foi impulsionado, no entretenimento, com a ajuda da axé-music.

- A aliança de ACM e o então presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, reciclou a "ditabranda" da axé-music em todo o território nacional, atingindo áreas antes hostis a este gênero, como os Estados do Sul e o Rio de Janeiro.

Mesmo com todas essas evidências, houve quem tolamente propusesse comemorar o suposto "fim do carlismo" com axé-music. Pior é o caso que contaremos abaixo:

PSEUDO-ESQUERDISTA E AXÉ-MUSIC

Estava eu e meu irmão andando no Iguatemi, em Salvador, quando, nas nossas habituais conversas questionando o brega-popularesco, eu falei que era pura ilusão alguém pensar que a axé-music vai trazer o socialismo para a Bahia. Perto de nós andava, em sentido contrário, um desses playboys com pinta de surfista mas com o cabelo castanho, sem parafina, que, ao ouvir o meu comentário, fez ar de esnobe, como se ele acreditasse que a axé-music iria trazer o socialismo para os baianos.

Mas, não se enganem, há pseudo-esquerdistas que capricham tanto no fingimento que eles passam a acreditar que são "esquerdistas", mesmo defendendo valores plenamente de direita (é só bater um papo com ele e ele vai dizer todos os valores neoliberais que acredita, mesmo sem assumir no discurso).

Daqui a 20 anos, provavelmente esse playboy deve fazer parte da equipe de assessoria de ACM Neto.

Um comentário:

Lucas Rocha disse...

No Orkut, mais precisamente no tópico "Programação Antiga-Grade", da comunidade "MofoTV", disseram que a axé-music foi inventada pela cantora Sarajane. Alguns anos atrás, muita gente desinformada pensava que o axé tinha sido inventado pelo "fricote" do Luís Caldas. E eu, que sou um autista inteligente, com Síndrome de Asperger e tudo, corrigi assim:
"Para falar a verdade, não foi a Sarajane quem inventou a axé music. Foi Antônio Carlos Magalhães, aquele chefão baiano de direita, que inventou esse ritmo musical que estava no projeto turístico daquela versão soteropolitana do trabalhista de esquerda Leonel Brizola."