terça-feira, 7 de abril de 2009

A MORTE DE COBAIN E A MORTE DO GRUNGE


No dia 06 de abril de 1994, há quinze anos, morreu por suicídio o músico Kurt Cobain, então ex-líder do grupo Nirvana, que ele desfez pouco após o MTV Unplugged, de onde foi extraída a foto acima.

O Nirvana foi o símbolo maior do fenômeno grunge, que foi mais problemático que brilhante, porque não passou de um grande hype da grande mídia musical, que não beneficiou sequer seus próprios intérpretes.

Para entender a agonia que levou Kurt Cobain a se matar, temos que nos localizar em 1990, quando o jornalista inglês do extinto semanário Melody Maker, Everett True (que também divulgou na mídia britânica grupos brasileiros como Sepultura, Brincando de Deus e Second Come), foi para Seattle, no extremo noroeste dos EUA, para verificar uma nova cena musical. Seattle já se tornou conhecida, antes, pelo genial guitarrista Jimi Hendrix.

A imprensa musical norte-americana sentiu então um certo ciúme por Everett True e, com avidez furiosa, se apropriou do cenário de Seattle, anunciando aos quatro ventos que era "a maior revolução da história do rock". Um lobby ali, outro aqui, e o segundo álbum do Nirvana, Nevermind, foi da noite para o dia posto para o topo das paradas de sucesso.

Do cenário de Seattle - que chegou a ser chamado de grindcore, mas havia outro estilo com este nome, e virou grunge pela iniciativa de Bruce Pavitt e Jonathan Poneman, a dupla do selo Sub Pop, para que nenhum outro menos informado batizasse o fenômeno - , quatro bandas se sobressaíram: Nirvana, Pearl Jam, Soundgarden e Alice In Chains.

No calor dos acontecimentos, eu achava o grunge um saco, e nunca acreditei nesse carnaval todo. Mas de repente a crítica musical dominante, a que se apropriou do cenário "descoberto" por Everett True, passou a mandar no mundo e não faltava almofadinha escrevendo em caderno cultural da grande imprensa os mesmos textos oba-oba que a imprensa ianque e, no Brasil, a paulista, escrevia sobre as bandas de Seattle.

Na época do modismo grunge, 1991-1992, houve uma pseudo-indústria da cultura rock no Brasil. Rádios de pop dançante ou de brega-popularesco contratavam uns três gatos pingados roqueiros para a produção e viravam "rádios rock" sem o menor esforço, enganando muita gente numa época ainda sem Internet. Grandes gravadoras "investiam" em simulacros de gravadoras "independentes" e muita gente acreditou na lorota de muitos selos pseudo-indie, como Banguela, Radical Records etc. (com a ressalva de que a Rock It!, mesmo sustentada pela EMI, se aproximava em mentalidade das verdadeiras indies). Críticos musicais da grande imprensa montavam fanzines, ou criavam colunas "alternativas" nos cadernos culturais.

É verdade que havia paralelamente uma mídia rock de verdade. Se tínhamos uma canastrona 89 FM, tínhamos a 97 Rock e a Fluminense FM, mesmo com seus erros. Se tínhamos uma Banguela ou Radical Records, tínhamos a veterana Baratos Afins e o Midsummer Madness. Se tínhamos uma General (dissidência da Bizz composta pela fase horrenda do Forastieri), tínhamos o Midsummer Madness Zine. Se tinha o crítico musical mainstream simulando zine no caderno de cultura do grande jornal, tinha o zineiro autêntico que garimpava do cenário musical de sua vizinhança ao que havia de bacana na imprensa britânica.

Aí, no Brasil, o grunge virou um grande oba-oba. A mídia só falava do grunge, enquanto na Grã-Bretanha bandas bem melhores que as de Seattle, como Ride, Wonder Stuff, Wedding Present e LA's, faziam o bom nome do rock britânico. Mas a crítica musical "padrão" só enxergava, do Reino Unido, as bandas de indie dance, que até são boas, mas longe de serem geniais, e pensou que todo mundo era shoegazer e enchia a cara no clube Hacienda de Manchester.

No mundo inteiro, Brasil incluído, o modismo grunge significou muita pressão para as bandas envolvidas. Da noite para o dia, aqueles músicos que começavam a fazer um som e se contentavam em tocar para uma platéia fiel em Seattle, viraram, contra a vontade, "cidadãos do mundo", "modelos de rebeldia", "ideais de sonoridade rock", e muita cobrança se fez para grupos que mal tinham cerca de cinco anos de carreira e uma sonoridade mal desenvolvida.

Kurt Cobain foi o símbolo maior, mas a pressão atingia a todos, mesmo Eddie Vedder, o vocalista do Pearl Jam. A sonoridade do grunge não é definida, mas pairava entre o hard rock e o punk, sem ser propriamente hard rock nem punk. Às vezes nota-se uma influência de Thin Lizzy, Blue Oyster Cult e Neil Young em algumas músicas.

Os grupos se Seattle foram jogados "verdes" para o estrelato e isso não foi bom. O modismo criou um estereótipo, sem que as pessoas percebessem do seu nível caricato, e de repente criou-se aquela visão chata de que tudo que não for rock pesado não é rock. Os jovens passaram a cultuar psicopatas como se eles fossem astros de filmes B. A escatologia virou "virtude" no rock. Nomes de merecido esquecimento como G.G. Allin, Genitortures, Nymphs, vieram à tona. Aquele ritual do rapagão com roupa de lenhador se ajoelhar no chão, com o cabelo cobrindo os olhos e fazendo som de "muralha de guitarra" ficou muito clichê.

Todo mundo pegou carona na mina de ouro. Críticos que promoveram primeiro o grunge ficaram ricos e poderosos. Gente que não tinha um estilo próprio passou a fazer grunge. O Stone Temple Pilots, da Califórnia, tentou fazer o som igual ao do Pearl Jam e Alice In Chains com Scott Weiland forçando a barra no vocal "gutural", mas só depois o STP percebeu que era uma banda legal sem imitar as de Seattle, com Weiland cantando com sua própria voz e não com a "voz de Layne Staley". No Brasil, até o RPM e os Titãs passaram a fazer som grunge, e a ridícula crítica musical da linha André Forastieri-Carlos Eduardo Miranda exaltava até a dupla Beavis & Butthead (no fundo uma paródia da juventude alienada ianque) como se fossem "os maiores mestres da música do planeta". Esse hype em torno de Beavis & Butthead havia nos EUA, mas não a esse ponto como ocorreu no Brasil.

Não vou aqui falar a história completa do grunge. Mas o desfecho deve ser mencionado. Das quatro bandas, o Nirvana acabou e Kurt Cobain tentou suicídio duas vezes, morrendo na segunda tentativa. O Pearl Jam se aproximou das sonoridades de Neil Young e Led Zeppelin. O Alice In Chains ficou desativado sem assumir seu fim, que só veio quando o vocalista Layne Staley foi encontrado morto, repetindo a tragédia de Cobain. E o Soundgarden acabou por tédio, simplesmente.

Kurt Cobain recebeu maior pressão na mídia. Qualquer atitude de revolta de Cobain era vista pela mídia como sensacionalismo. Foi este mesmo esnobismo e voracidade da mídia de celebridades que fez a princesa de Gales, Diana Spencer, morrer três anos e meio após Cobain. A mídia sensacionalista é cruel, na sua busca feroz por notícias. O comercialismo vazio do mundo das celebridades cria, escraviza e destrói ídolos.

A turma de Seattle ainda estava mal resolvida musicalmente quando começou a ficar famosa. A pressão da mídia não deixou as bandas amadurecerem e só lhes criou problemas. Não é exagero afirmar que o MTV Unplugged do Nirvana é sua verdadeira "gravação demo". Seria o que o grupo faria se não fosse essa badalação em torno dele. Anos depois, o baterista do Nirvana, Dave Grohl, trocaria de instrumento e, como cantor e guitarrista dos Foo Fighters, aproveitaria muitas das lições que o Nirvana pensava em fazer, mas não teve contexto favorável para isso.

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