domingo, 26 de abril de 2009

MÍDIA DE ESQUERDA AINDA NÃO ENTENDE O PROBLEMA DA MPB


A mídia considerada de esquerda, como Carta Capital e Caros Amigos, ainda não entende a questão que se relaciona com a crise da Música Popular Brasileira.

Os recentes textos sobre Música Popular Brasileira apenas se limitam a atribuir à crise a uma aparente elitização da música brasileira, algo que eu defino como a síndrome da Academia Brasileira de Letras. Em outras palavras, a MPB periga se tornar a ABL musical, restrita apenas aos grandes mestres.

Só que a mídia esquerdista até agora não conseguiu ver o outro lado, que é o império da mediocridade musical que representa o brega-popularesco, até porque a intelectualidade dominante, seja de direita ou de esquerda, é, em sua maioria, de formação de classe média. Por isso que os mesmos que defendem Waldick Soriano, Zezé Di Camargo, Exaltasamba, DJ Marlboro e Banda Calypso contribuem muito mais para a elitização da MPB do que para a verdadeira valorização da cultura popular brasileira.

Quem observa bem as coisas sabe muito bem que o brega-popularesco de waldicks, zezés, marlboros, ivetes, chitões, créus, tchans, leozinhos, belos, xanddys, sandys, brunos, marrones, mulheres-frutas, calcinhas, aviões, asas, chicletes etc., etc. e etc., NÃO representa a verdadeira cultura popular brasileira.

O brega-popularesco é a chamada Música de Cabresto Brasileira. Por trás desses ídolos "naturalmente populares", existem latifundiários, empresários, políticos de direita, investindo horrores, fazendo até lavagem financeira para manter seus ídolos em evidência. Se um Alexandre Pires entra em decadência, milhões são jogados na mídia para anabolizar o marketing e manter o cantor em evidência, novamente. Se o Calcinha Preta tem que fazer sucesso em Florianópolis, é mais dinheiro ainda. O mesmíssimo recurso da política de cabresto de cem anos atrás, quando se investia horrores para os candidatos dos "coronéis" vencerem sempre qualquer parada eleitoral.

Por isso soa muito estranho que a Carta Capital tenha colocado Zezé Di Camargo & Luciano na foto de última página. Protegidos da mídia gorda - em especial, a Rede Globo, que co-produziu um filme sobre a dupla - , os breganejos simbolizam os interesses dos empresários de agro-negócio e os latifundiários de gerações mais recentes, "filhos" das políticas agro-pecuárias do "milagre brasileiro" (1969-1974), que gerou uma elite de grandes proprietários de terras que, nos anos 90, patrocinou toda a dita "música sertaneja" e toda a chamada "oxente-music".

Espera-se um pouco de semancol ao Pedro Alexandre Sanches, jornalista que Carta Capital "importou" da Folha de São Paulo, e que ele não caia na tentação de aplaudir nomes como Waldick Soriano e derivados, porque mal sabe ele que o "grande prestígio" que o cantor de "Eu não sou cachorro, não" se deu com muito apoio de latifundiários donos de rádios. E que não é surpresa alguma Waldick ter sido censurado, porque numa ditadura em que os generais não se entendiam e os censores tinham um grau variável de frescura, Waldick pode ter sido censurado por qualquer motivo, menos por ameaçar a ditadura, que aliás gostava muito do cantor, tinha aquele mesmo olhar do João Figueiredo e um jeitão de chefe do SNI.

Também soa estranho que a Caros Amigos tenha no seu quadro de colaboradores um funkeiro como o MC Leonardo, que, apesar da postura de pretenso militante, é também outro protegido da mídia gorda, sobretudo a mais popozuda delas, a Rede Globo. TODO o "funk carioca", sem exceção (não se fala, aqui, do funk autêntico de Tim Maia e afins, que é outríssima coisa), tem as bênçãos da Rede Globo e da Folha de São Paulo, e mesmo o aparente mau-humor de Veja e seu método Justo Veríssimo de ver os movimentos populares não é mais do que um outro apoio aos funkeiros, porque para os fascistas de Veja é melhor que os pobres curtam MC Créu e MC Serginho do que curtir Jackson do Pandeiro, Cartola e João do Vale.

A coisa é tão grave que o discurso que MC Leonardo faz ao seu "funk" (ele é responsável, ao lado do irmão MC Júnior, do tal "Rap das Armas" que virou tema do filme Tropa de Elite, co-produzido pela Globo - que de "rap" não tem coisa alguma) é RIGOROSAMENTE O MESMO que a Folha de São Paulo, no caderno Ilustrada, fez ao gênero, anos atrás. É RIGOROSAMENTE O MESMO discurso que o jornal O Globo fez, no Segundo Caderno.

O discurso de MC Leonardo rima muito bem com mídia gorda e, se a "filosofia" dele se afina muito bem com a visão da Folha de São Paulo sobre o "funk", fica pouco eficaz combater a mídia gorda e suas "ditabrandas", se os mesmos combatentes aplaudem a suposta "música popular" que essa mesma mídia dominante patrocina até de forma escancarada.

É por isso mesmo que, nos bastidores da grande mídia, o pessoal dá gargalhadas porque os mesmos que combatem seus editoriais políticos são os mesmos que consentem no que seus braços "culturais" impõem para o povo consumir. E que a própria direita política, do general Castello Branco ao sociólogo Fernando Henrique Cardoso, apoiou decisivamente todos os ídolos bregas e neo-bregas.

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