quarta-feira, 15 de abril de 2009

BREGANEJO: A "MÚSICA SERTANEJA" QUE A MÍDIA GORDA APÓIA


Um dos ritmos do brega-popularesco que dominam o país está a dita "música sertaneja", ou o breganejo, um dos primeiros da onda neo-brega que assola o Brasil a ponto de ameaçar a sobrevida da Música Popular Bem Brasileira (para usar um termo do saudoso Sérgio Porto), a MPB autêntica, que hoje em dia, pasmem, praticamente inexiste em muitas regiões do interior do país. Isso mesmo: não há um cenário de MPB autêntica em várias partes do interior do país.

O breganejo, na verdade, é a música derivada do poder latifundiário que existe no interior do Brasil e em regiões como o Norte e Nordeste. Sabemos que o poder latifundiário é a principal face do coronelismo, porque o poder dos grandes proprietários de terras é expresso principalmente pelos grandes fazendeiros, mas não só por eles.

Vamos entender o que é o coronelismo. A expressão vem do título dado pela Guarda Nacional do Segundo Império, no século XIX, aos fazendeiros ou delegados do interior do país que treinavam e enviavam soldados para a Guerra do Paraguai, além de dar aval financeiro às campanhas dessa guerra que durou entre 1865 e 1870. Essa guerra, na verdade, foi uma armação do império britânico para destruir um país que se prosperava, que era o Uruguai, com o governo populista de Solano Lopes (o Hugo Chavez da época). Brasil, Argentina e Uruguai foram chamados pelo Exército britânico para lutar contra o Paraguai, que perdeu a batalha final e, decadente, tornou-se o "paraíso" dos contrabandos e do comércio clandestino. Os grandes fazendeiros e delegados ganharam o título de "Coronel da Guarda Nacional" por conta de sua colaboração.

O coronelismo, no século XX, foi expresso pela concentração de poder dos grandes proprietários, que entraram em conflito com agricultores e trabalhadores sem-terra. Os conflitos eram lamentavelmente trágicos. Havia até listas de gente que deveria ser exterminada por pistoleiros. A pistolagem virou um mercado forte com o coronelismo. Isso dura até hoje, e vítimas como o seringueiro Chico Mendes e a missionária Dorothy Stang mostram esse lado sombrio do coronelismo.

Por isso, o coronelismo, que já derramou sangue demais, não poderia manipular só com a pistolagem. Deveria também manipular o povo pobre pelo entretenimento. Por isso mesmo é que, no final da década de 1950, requentando o já superado modismo das serestas e boleros (que fizeram sucesso no país até às vésperas da Bossa Nova), o poder coronelista, em especial o latifundiário, começou a investir em rádios e alto-falantes, além de apadrinhar ídolos da chamada MÚSICA CAFONA, quando ainda não havia o termo "cafona" (lançado em 1962) e nem mesmo o célebre termo "brega" (lançado em 1972).

Eram versões caricatas dos seresteiros, carregadas de pieguice, e que nos últimos anos tentam ser reabilitados pela mídia gorda, sobretudo as Organizações Globo e a Folha de São Paulo (o verniz "cult" da cultura brega se deve muito ao mesmo jornal que chamou a ditadura militar de "ditabranda"), como se fossem um "movimento de vanguarda". Os ídolos cafonas dessa época são muito conhecidos: Waldick Soriano, Aguinaldo Timóteo, Nelson Ned e até o hoje esquecido Orlando Dias, apadrinhado pelo poderoso Abraão Medina, pai de Rubem e Roberto (do Rock In Rio).

A música cafona da linha Waldick Soriano foi a fonte inicial para a diluição da música caipira brasileira, a partir de 1968. O sucesso de ídolos religiosos como o Padre Zezinho, que inspiraram os cafonas no padrão das capas de discos e na postura moralista-religiosa dos ídolos cafonas, além da influência de Hollywood que queria que a música caipira brasileira fosse "menos regional", ganhavam reforço com a música romântica que era lançada naquele ano das barricadas como forma de combater a fúria do rock psicodélico. Essa música romântica tinha nomes pouco conhecidos como Salvatore Adamo, mas seu principal expoente foram os Bee Gees, e ficou marcada por músicas chorosas, cheias de arranjos de cordas.

Tudo isso, aliado ao cenário da ditadura militar - que se empenhou em eliminar o espírito nacionalista brasileiro em prol de uma "brasilidade" subordinada aos ideais imperialistas dos EUA (por sinal assustados com a repetição da tragédia de John Kennedy com o irmão Bob) - , a música caipira passou a se diluir com os elementos estereotipados do tex-mex (country music
texana mais mariachis e boleros mexicanos), com a religiosidade exagerada (influência distante da Marcha Deus e Liberdade e do catolicismo ortodoxo que combatia a Teologia da Libertação e criava ídolos como Padre Zezinho) e com a pieguice musical reciclada pelos irmãos Gibb.

Essa deturpação da música caipira não tardaria a criar seus produtos, como a dupla paranaense Chitãozinho & Xororó, que lançou seu primeiro disco em 1970. Foi essa mesma dupla que, em 1989, ao lado dos seguidores Leandro & Leonardo e Zezé Di Camargo & Luciano, que comemoraram a vitória eleitoral do "moderno" conservador Fernando Collor de Mello, inaugurando toda a onda neo-brega de nosso país.

O breganejo é um parasita da "música caipira". No circuito da mídia gorda, o breganejo, hipócrita, faz se passar pela "própria música caipira", adotando apenas alguns elementos mais manjados da música caipira tradicional. É musicalmente esquizofrênico, podendo virar arremedo de country music num disco e, no seguinte, uma paródia, de mau gosto e não-assumida, da poesia do Clube da Esquina. Tem uma confusa obsessão em ser regional e global (pop) ao mesmo tempo, entre ser rural e urbano de uma vez, e sua regionalidade é só aparência, pois pode-se montar uma dupla breganeja até no condomínio de luxo do Morumbi, em São Paulo, inventando até dramalhão similar ao transmitido pelos filmes Os Dois Filhos de Francisco e O Menino da Porteira (versão 2009, com o breganejo Daniel no elenco).

Além disso, a suposta "música sertaneja" é marqueteira e se apóia nos valores conservadores da sociedade brasileira, os mesmos evocados pela Marcha da Família Unida com Deus pela Liberdade de 19.03.1964, a marcha que praticamente impulsionou o golpe militar e a infame "ditabranda" brasileira que arrasou o país. Por isso mesmo é que o breganejo se apóia em valores de direita, como a visão conservadora de "família", de "tradição", de "respeito humano" que não é mais do que uma mera subordinação dos fracos aos fortes, dentro de um moralismo ortodoxo travestido de "modernidade". A direita sabe ser retrógrada de um jeito mais "moderno".

Por isso mesmo é que se confundem os valores humanistas, verdadeiramente solidários, verdadeiramente progressistas, com o moralismo mofado dos breganejos. Zezé Di Camargo & Luciano tentaram vender uma falsa imagem de "petistas" e daí para um idiota botar no blog que a "música sertaneja" (breganejo) é a trilha sonora do MST é um pulo. Mas nem a mídia fofa (Bandeirantes, Isto É) queria associar os "adoráveis" breganejos aos abomináveis sem-terra, que acendem uma chama "vejista" até no mais cordato cronista da Band News FM. Por isso ninguém chega ao ponto de associar o breganejo ao MST, o pessoal apenas fica calado quando a esquerda diz que o breganejo é a música dos grandes donos de terra.

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