terça-feira, 31 de março de 2009

SAMBREGA - O SAMBA FALSIFICADO DO BREGA-POPULARESCO


Quem entende da análise crítica em relação à mídia gorda e suas armadilhas, sabe que a vitória eleitoral do candidato conservador Fernando Collor de Mello, há vinte anos, foi brindada com uma festa reunindo a "nata" da "música sertaneja" atual. Gente como Chitãozinho & Xororó, Zezé Di Camargo & Luciano e Leandro & Leonardo (por trás deles veio uma enxurrada de outras duplas do gênero), que antes simbolizaram a baixaria musical da grande mídia e hoje, a custa de muita lavagem cerebral no público e banho de loja e tecnologia de ponta (incluindo marketing, assessoria de imprensa e até equipe técnica, músicos e arranjadores melhor treinados), essas duplas hoje são vistas como "coisa séria", a ponto dos mais incautos pensarem que eles fazem parte do primeiro time da MPB (só se a sigla quiser dizer, na verdade, Mediocridade Popular Brasileira).

Pois junto com os breganejos - que mais tarde vamos detalhar sobre eles - , temos o equivalente sambista desses impostores, que é o sambrega, ou o "pagode brega-romântico", que tambem veio como trilha sonora daqueles "inesquecíveis" tempos colloridos, que marcaram a memória da juventude alienada que hoje esnoba Renato Russo e as passeatas Fora Collor e é a mesma que pensa que dirigir embriagado é exemplo de cidadania.

O sambrega é uma diluição do samba para os parâmetros padrão da música brega. A diluição chega a ser tão grotesca que boa parte da história sambista é desconhecida pelos músicos de sambrega, que por eufemismo chegam a apelidar seu som de "samba pop", porque "pop" virou desculpa para qualquer medíocre se passar por gênio da música.

O sambrega tem dois estágios. O primeiro deles é o mais criticado. É o dos chamados "mexedores de pézinhos". Um monte de rapagões com pinta de leão-de-chácara fazendo uma mesma coreografia e cantando baladas melosas, que normalmente imitam, e muito mal, o hit-parade norte-americano (normalmente tentam se espelhar em Stylistics, Lionel Richie e Chicago, mais a coreografia "chupada" do Jackson Five). Traduzem então essa influência com letras de sentimentalismo piegas e botam instrumentos de samba nesse som.

Mas existe o outro tipo, muito mais perigoso, porque engana bem. É o estilo pedante. Vamos ainda comentar melhor sobre o pedantismo popularesco, mas ele ocorre quando ídolos do neo-brega alcançam o quinto CD de sucesso e supostamente repensam a carreira. E, também supostamente, buscam mudar o som para algo "mais MPB", o que é uma farsa, porque eles continuam fazendo o mesmo som meloso de antes, só que contam com a ajuda de um arranjador mais preparado.

Daí que é risível ver que certos blogueiros ficam elogiando os discos do Exaltasamba, Só Pra Contrariar e companhia, por causa das músicas "bem legais" que ouvem. Só que essas músicas "bem legais" têm assinaturas como Paulinho da Viola, Arlindo Cruz, Zeca Pagodinho, Martinho da Vila, Paulo Sérgio Pinheiro e por aí vai, porque aqui os grupos de sambrega parasitam o repertório sambista para enganar a platéia. É o tal Enganasamba.

A coisa se torna tão sutil que uma banda como Revelação (ou Grupo Revelação) chega a parecer "samba sério", pela pose e pela imagem que tentam passar na mídia. Só que, ouvindo o som deles com maior atenção, veremos que se trata do mesmo sambrega maquiado pela tecnologia, pelos arranjadores de ponta, pela produção de última definição e até pelo marketing e pelo lobby que seduz sambistas de verdade (que, na boa fé, ficam condescendentes com os impostores do samba porque estes têm mais espaço na mídia).

Um exemplo: "Eu te quero só pra mim", primeiro sucesso do Grupo Revelação, na verdade é um breganejo meloso disfarçado de "samba sério". E, nos CDs "ao vivo" (ou será "de estúdio com palmas"?), o Grupo Revelação adota o mesmo ingrediente de todo brega-popularesco que lança disco "ao vivo": os gritos exagerados das fãs histéricas, que geralmente cantam as músicas dos ídolos com suas vozes estridentes.

Normalmente, o sambrega pedante tenta soar como se fosse um CD menos inspirado de sambistas de verdade como Zeca Pagodinho e Fundo de Quintal. Para artistas assim, com história e valor reconhecidos, certamente gravar um CD sob pressão da gravadora, composto às pressas e sem tempo de aperfeiçoar as canções inéditas, soa algo decepcionante. Mas, para ídolos da mediocridade, como Alexandre Pires, Belo, Exaltasamba, Revelação, Molejo, Morenos, Pixote, a fase atual do Harmonia do Samba etc., etc., etc., soa como "ato de coragem", pois é uma chance de ídolos canastrões estarem de alguma forma associados aos verdadeiros artistas.

Um comentário:

Lucas Rocha disse...

Sempre que minha mãe está aqui ao meu lado, eu raspo a garganta. Por isso, se eu fosse forçado a ouvir, todo santo dia, a música "Mel na minha boca", do grupo Desejos (um verdadeiro clone do Karametade que, felizmente, caiu no chiqueiro do esquecimento), encheria meu MP4 de pagodeiros e breganejos chifrudos.