terça-feira, 10 de março de 2009

A "ditabranda" de Paulo César Araújo


Mês passado o editorial da Folha de São Paulo afirmando que a ditadura brasileira foi "suave" através do neologismo "ditabranda", irritou muita gente.

Mas, no ramo do entretenimento, fato semelhante aconteceu em relação à música brega, beneficiada por outra distorção "revisionista" cuja gravidade muita gente não percebeu.

Em 2001, Paulo César Araújo, historiador de pouco crédito, passou a ser o queridinho da mídia gorda quando afirmou, no livro Eu não sou cachorro, não, que os ídolos bregas foram "vítimas" da ditadura, enquanto a MPB autêntica - que PC Araújo chama pejorativamente de "MPBzona" - teria se "beneficiado" com os anos de chumbo.

A distorção, como se sabe, não chegou a aliviar a má imagem da ditadura, mas, no melhor estilo Chavez (o personagem cômico, não o presidente venezuelano), do bordão "Foi sem querer, querendo", Araújo, mesmo "admitindo" que os ídolos cafonas eram despolitizados, insistiu numa "militância" política que, segundo o historiador, estava "implícita" nas músicas desses ídolos. Num dos trechos do livro, Araújo chegou a fazer uma impensável comparação entre a música "Eu não sou cachorro, não", sucesso de Waldick Soriano, com a canção "Opinião", de Zé Keti, tema da peça do mesmo nome encenada em 1964.

A tese conspiratória, de crédito duvidoso mas verossímil, funcionou por tocar tanto no sentimentalismo do grande público quanto aos interesses da grande mídia na exploração da música brega e seus derivados. Afinal, são ídolos como Waldick Soriano e Odair José os ancestrais dos atuais ídolos "populares" de hoje, como Alexandre Pires, Ivete Sangalo, É O Tchan, Zezé Di Camargo & Luciano, Banda Calypso e DJ Marlboro, todos de uma forma ou de outra seguidores da cartilha brega.

Desse modo, o brega antigo ajudou o brega contemporâneo a perpetuar seu sucesso e a mesma campanha de defesa de Waldick Soriano se vê, com semelhança fiel, nas campanhas de defesa do "funk carioca" e dos ídolos breganejos como Zezé Di Camargo & Luciano e Daniel.

Só que a tese de Paulo César Araújo, até pelo apoio escancarado da mídia gorda, e por alguns fatores históricos não reconhecidos pelo autor, estranham bastante. Afinal, a música brega tornou-se popular não porque desafiava a ditadura militar. É estranho que, com o AI-5, a música brega automaticamente seja jogada ao sucesso popular assim de bandeja.

Pelo contrário, a música brega passou a ser mais difundida pelas emissoras de rádio ligadas a lideranças coronelistas do interior do país e seus aliados de São Paulo. A historiografia da música brasileira enfoca apenas os grandes centros, e não reconhece que muito do sucesso de Waldick Soriano & companhia se deve muito aos "coronéis". A ideologia brega tem muito do conformismo social que a direita deseja do povo.

E, finalmente, os ídolos cafonas - que só foram censurados por pecados menores - estavam completamente ausentes de toda e qualquer campanha pela redemocratização do Brasil.

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